a beleza do sal (78)


palavras salgadas

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guardas em arcas as palavras
em sal
à moda antiga de antes de ti
mas o sal não conserva as palavras
digo-te eu que de outro tempo
um dia lembrar-te-ás das palavras
guardadas
das que não disseste
do silêncio
irás à arca em sua busca
pensando usá-las
mas não terás o destinatário
para quem as guardaste
se as guardaste
o tempo corrói tudo
até o presente
que não usaste
e então
talvez seja sal o que
pelo rosto te escorre
sal nada mais
sem palavras
a temperar o silêncio
o não dito
(armazéns de lavos; mexer; 2019)

a beleza do sal (46)


eu abri as portas da gaiola

(….eles passarão
eu passarinho
“mário quintana”)

não sei de bancadas
nem de lugar à sombra

gosto de sol e mar
e da força da vagas

ficou vazia a cadeira
que me guardaram

recuso o caminho palavroso
onde não nasceram gestos

cantam de poleiro
aves de arribação

eu abri as portas da gaiola
para voar
é tarde para me cortarem
as asas

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o meu amigo paulo formiga

(armazéns de lavos; mexer; 2016)