a beleza do sal (115)


que fazer das palavras

morraceira; mexer; 2020
 que fazer das palavras
 se não o assassínio do silêncio
  
 que fazer das palavras
 se não a ferramenta da denúncia
  
 que fazer das palavras
 se não o dizer esta revolta hoje aqui
  
 que fazer das palavras
 se não servirem para derrubar o palco
 erguido pelo silêncio
 
 que fazer das palavras
 se as aprendi para as dar e serem mais
 
 só a conquista dá valor ao conquistado
 desprezadas são as ofertas
 
 que fazer das palavras
 se não usá-las para gritar quando necessário 

a beleza do sal (86)


a flor não

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ilha da morraceira; mexer; 21/07/2020

 
em cima da cilha
os montes de sal
enfeitados
 
sobre o monte mor
a chuva tomba
 
espera o homem
que de pouca dura
a água doce
 
em cima da cilha
sol mar suor
resistirão
 
no talho a flor
não
 
 

a beleza do sal (85)


mexer

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ilha da morraceira; mexer; 2020

sábado 27 de junho de 2020
na morraceira já se mexia
e eu fiz a primeira foto do ano
há três anos
quando comecei a fotografar o salgado
de forma diversa foi com o mesmo marronteiro
esperemos que seja uma boa safra para todos
e que haja quem queira registar esta arte
(“agora o sal está a trabalhar para ele”, disse-me o zé quando acabou de mexer e eu me despedi)

a beleza do sal (78)


palavras salgadas

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guardas em arcas as palavras
em sal
à moda antiga de antes de ti
mas o sal não conserva as palavras
digo-te eu que de outro tempo
um dia lembrar-te-ás das palavras
guardadas
das que não disseste
do silêncio
irás à arca em sua busca
pensando usá-las
mas não terás o destinatário
para quem as guardaste
se as guardaste
o tempo corrói tudo
até o presente
que não usaste
e então
talvez seja sal o que
pelo rosto te escorre
sal nada mais
sem palavras
a temperar o silêncio
o não dito
(armazéns de lavos; mexer; 2019)