a beleza do sal (115)


que fazer das palavras

morraceira; mexer; 2020
 que fazer das palavras
 se não o assassínio do silêncio
  
 que fazer das palavras
 se não a ferramenta da denúncia
  
 que fazer das palavras
 se não o dizer esta revolta hoje aqui
  
 que fazer das palavras
 se não servirem para derrubar o palco
 erguido pelo silêncio
 
 que fazer das palavras
 se as aprendi para as dar e serem mais
 
 só a conquista dá valor ao conquistado
 desprezadas são as ofertas
 
 que fazer das palavras
 se não usá-las para gritar quando necessário 

a beleza do sal (114)


é dia ainda

armazéns de lavos; carregar o dumper; 2019
 é dia ainda e já se ouve
 o uivar do lobo
  
 a memória acende
 nos lábios as palavras
 guardadas quase
 esquecidas necessárias
 
 é dia ainda e já se sente
 o fedor da besta
  
 junta-se na praça a alcateia
 vindos de longe
 respondem ao chamado
 sedentos de carniça
  
 é dia ainda e já sabemos
 que o uivo o fedor
 mau prenúncio são
  
 ao engano quantos irão 

a beleza dos sal (112)


doem-me os braços

ilha da morraceira; rer; 2020
 tempo de espera este
 sobreviver para viver
 sem saber quando
  
 tempo para lembrar
 depois esquecer
 tempo de não ser
  
 o sal está a trabalhar
 dizem e esperam  
 o tempo de estar feito
 
 no talho que me coube
 vou mexendo os dias
 com vontade de os rer
  
 doem-me os braços
 por falta de abraços 

a beleza do sal (110)


Recriação da safra à moda antiga” – foto 20

dilema

armazéns de lavos; salina do corredor da cobra; agosto 2020
 quantos és  
 que te não sabes
 
 só és muito
 e tão pouco te sentes
 
 a casa fizeste à tua medida
 pequena e enorme dizes
 tua não é nunca o foi
 
 por entre as paredes
 a solidão cresce
 e és tu em tudo
 
 habitas o dilema
 
 como o sal  
 o tempo escorre  

a beleza do sal (107)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 18

a estória destes dias

salina do corredor da cobra; 2020
 escrevo-te de dentro  
 do silêncio
 
 
 apenas os pássaros
 da vizinha
 
 
 cantam
 
 
 silencioso escrevo-te
 de dentro do silêncio
 
 
 digo-te
 
 
 ouvir uma porta bater
 é sinal de vida
 
 
 dos amigos chega
 pelo telemóvel
 
 
 a voz o abraço
 
 
 é esta a estória
 destes dias 

a beleza do sal (105)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 16

é quando o vento sopra forte

salina do corredor da cobra; 2020
 é quando o vento sopra forte
 que das árvores caem
 ramos folhas frutos
 
 
 alguns vermes
 
 
 é quando o vento sopra forte
 que as gaivotas pairam  
 poisadas no vento
 
 
 por sobre o mar  
 
 
 é quando vento sopra forte
 em dias de sol que se faz
 mais sal no talho
 
 
 mas não flor  

a beleza do sal (104)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 15

salina do corredor da cobra; 2020
vê-las caminhar
com a giga carregada
e a elegância de desfile


explica o ser salgado
o sangue e intemporal
a tradição revivida