a beleza do sal (129)


no sal a memória do sol e do mar

armazéns de lavos
estalam-me na cabeça
os tufões medonhos do atlântico sul
rebentam-me nos olhos
as calemas de março
o simoun enche-me a boca
de areia e raiva

lambem-me o sexo
as chamas que no verão
devoram pinhais e searas
tremem-me as mãos
sinto nos dedos os abalos de agadir

mergulham ante meus olhos horrorizados
todos os passageiros do titanic
o amazonas corre-me nas veias
ribombam-me no coração
as cataratas do niagara
os ouvidos rebentam-me
com a pressão dos grandes rios
a entrarem no mar

o corpo arde na fogueira
possesso de um demónio
inventado pela inquisição

todo eu tremo ante tanto desvario
e tudo se conjuga
no rodopiar do carrossel louco
desta cabeça
que não sei se é minha
mas que pesa
como se fosse o mundo 
armazéns de lavos

a beleza do sal (126)


silencio
as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
para esse fim
(o fundo do bolso)

hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim

e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
morraceira; 2019

a beleza do sal (122)


in memoriam luís cardoso

na salina do corredor da cobra (ecomuseu do sal) a alegria, o saber, o amor pelo sal, tinham um nome: luís cardoso.

bom conversador e conhecedor da história e das técnicas de fazer sal, era um excelente guia para quem visitava a salina.

partiu este ano e continua connosco. é esse o mistério da ausência presente, que pessoas como ele nos deixam.

abraço luís, salgado abraço

(este pequeno e mal amanhado registo, com uma nortada forte a perturbar o som, foi feito com o smartphone, em setembro de 2020, naquela que seria a última redura do ano.)