a beleza do sal (131)


dizer

(mexer; morraceira; salinas do corredor do sol; 2019)

dizer
o teu nome
o nome de todas as coisas
as coisas que cada nome encerra

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até que ela perca o sentido
a sua ligação com o representado

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

dizer

sal na figueira em 28 de maio de 2022


normalmente na figueira da foz começa-se a tirar sal em julho ou agosto, este ano a 13 de maio, na salina do vale da vinha, nos armazéns de lavos, já se tirava sal.

no dia 28 de maio fiz este registo e a 29 seria carregado o primeiro sal.

o marronteiro antónio julião, que explora a salina, disse que nunca na sua vida tal tinha acontecido e por isso me telefonou para fazer o registo.

(o filme)

a beleza do sal (129)


no sal a memória do sol e do mar

armazéns de lavos
estalam-me na cabeça
os tufões medonhos do atlântico sul
rebentam-me nos olhos
as calemas de março
o simoun enche-me a boca
de areia e raiva

lambem-me o sexo
as chamas que no verão
devoram pinhais e searas
tremem-me as mãos
sinto nos dedos os abalos de agadir

mergulham ante meus olhos horrorizados
todos os passageiros do titanic
o amazonas corre-me nas veias
ribombam-me no coração
as cataratas do niagara
os ouvidos rebentam-me
com a pressão dos grandes rios
a entrarem no mar

o corpo arde na fogueira
possesso de um demónio
inventado pela inquisição

todo eu tremo ante tanto desvario
e tudo se conjuga
no rodopiar do carrossel louco
desta cabeça
que não sei se é minha
mas que pesa
como se fosse o mundo 
armazéns de lavos

a beleza do sal (126)


silencio
as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
para esse fim
(o fundo do bolso)

hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim

e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
morraceira; 2019