ria radical (14)


(ainda estás bem filho
ainda)

ainda
me dói a cabeça
o joelho de quando em vez

ainda
leio muito compro livros sem tino
escrevo quando me provocam

ainda
tenho de andar pela sombra
besuntado de protector

ainda
passeio pelas redes sociais
virtuais e reais e armo broncas

ainda
continuo a dormir mal
a ter cuidado com a boca

ainda
me indigno com a ordem das coisas
me revolto como posso

ainda
morro a qualquer momento
o cardiologista diz que estou para durar

ainda
alimento o sonho de que isto
não é para sempre

ainda
gosto de beijar
apaixono-me todos os dias

ainda
falo sozinho
mas agora gravo poesia

ainda
gasto balúrdios
na manutenção do corpinho

ainda
estou vivo e é demasiado tarde
para me comprarem

(kitesurf; mamaparda; bunheiro; 2013)

ria radical (11)


a minha geração

à rasca
passávamos de ano

à rasca
chegávamos a horas

à rasca
escondíamos o namoro

à rasca
bebíamos um copo na tasca

à rasca
fumávamos um cigarro

à rasca
fugíamos da polícia

à rasca
distribuíamos comunicados

à rasca
comprávamos livros proibidos

à rasca
conquistámos a democracia

não a cederemos a gente
rasca

(kitesurf; mamaparda; bunheiro; 2013)

ria radical (4)


o poeta benzia-se
e não acreditava em deus

o poeta rezava
e não acreditava em deus

era segunda-feira
o poeta foi em peregrinação
à feira de espinho

deus estava no casino
ganhava milhões
na roleta de combustível

o poeta não se converteu
e deus não lhe vendeu
serviços de auditoria

deus não acreditava
no poeta

(ria de aveiro; bunheiro; 2013)