ria radical (14)


(ainda estás bem filho
ainda)

ainda
me dói a cabeça
o joelho de quando em vez

ainda
leio muito compro livros sem tino
escrevo quando me provocam

ainda
tenho de andar pela sombra
besuntado de protector

ainda
passeio pelas redes sociais
virtuais e reais e armo broncas

ainda
continuo a dormir mal
a ter cuidado com a boca

ainda
me indigno com a ordem das coisas
me revolto como posso

ainda
morro a qualquer momento
o cardiologista diz que estou para durar

ainda
alimento o sonho de que isto
não é para sempre

ainda
gosto de beijar
apaixono-me todos os dias

ainda
falo sozinho
mas agora gravo poesia

ainda
gasto balúrdios
na manutenção do corpinho

ainda
estou vivo e é demasiado tarde
para me comprarem

(kitesurf; mamaparda; bunheiro; 2013)

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