“Quando começa o Inverno na ilha ….” de marcela serrano


“Quando começa o Inverno na ilha ….” é a introdução ao capítulo 8 do livro “o refúgio das mulheres tristes” de marcela serrano

os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)

postais da ria (366)


enredado

torreira; safar redes; 2017
encontrar a primeira malha
seguir o rasto ao fio
caminho inverso ao da agulha


depois da primeira muitas mais
fizeram a rede
mas essas vieram depois


encontrar a primeira malha
é contar a história da rede
da rede toda a começar pelo fim


minuciosos os dedos são
a ferramenta primeira na escolha
cuida deles como da verdade


encontra a primeira malha
ou em vez de redeiro serás
enredado

crónicas da xávega (358)


2 de setembro de 2016

agostinho trabalhito (canhoto); torreira; 2 de setembro de 2016

como já escrevi na primeira publicação desta série, a minha era digital na xávega começou em 2005 e, na torreira, por motivos vários, terminou no dia 2 de setembro de 2016 – doze anos a registar fotográficamente, e não só, a xávega na torreira


a foto que publico hoje é a “última foto que fiz no mar da torreira”.


como não acredito em coincidências, entendo que o facto de nela aparecer o meu grande amigo agostinho trabalhito “canhoto” não é acaso, tinha de ser.

lembro uma história breve da nossa amizade e que diz tudo.

“um dia, disse-lhe que quando morresse as minhas cinzas iriam ser deitadas ao mar. ao ouvir isto o agostinho, com a maneira de falar que o caracteriza, exclamou:


ah! cravo. eu nesse dia não bou ao mar!