memória_21112009


a memória dos dias

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uma memória do além tejo; portalegre; 2007

 
 
sentam-se logo pela manhã
atrás dos vidros
acordam os pássaros fronteiros
 
fazem a lide
a renda e a roupa
falam sozinhas
(ouve-se ao longe a rádio)
 
abrem a janela
trocam notícias fazem jornais
saberes antigos de outras tipografias
foram elas que
inventaram as rádios locais
 
passam a ferro
limpam o chão
sentam-se de novo
 
quando querem
da rua
ninguém as vê

memórias da minha coimbra (VIII)


o kim dos ossos

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coimbra; praça do comércio; 2009

o tempo da fast food ainda não tinha chegado a coimbra. a tasca do quim, como era conhecida, era famosa pelos ossos de espinhaço de porco cozidos e condimentados à moda do quim.
foi a última tasca de coimbra. tinha duas portas de entrada: a da esquerda dava para a mercearia e da direita, uma porta de duas folhas de vai e vem, levava-nos para o interior da tasca. meia dúzia de mesas, os pipos de encostados à parede com as torneiras prontas a debitar.
começava-se normalmente com uns cricos (berbigões) abertos à quim e depois continuava-se com os famosos ossos e outros petiscos. cada um servia-se do vinho dos barris que ficavam atrás da mesa e ia marcando com um traço cada copo que bebia.
no fim éramos nós, ainda somos apesar de já não ser tasca, que dizíamos o que tínhamos consumido e assim nascia a conta.
quantas noites de violas e guitarras e poesia …..
na tasca do quim não se cantava fado de coimbra, cantava-se zeca afonso, adriano, fado de lisboa e dizia-se poesia.
conviviam estudantes, trabalhadores, licenciados…. era um sitio à parte na cena coimbrã.
encastrada na parede exterior havia uma pedra que servia de banco para duas pessoas, um belo dia sentei-me ao lado de um velhote que, pensativo, seguia com os olhos as jovens estudantes que passavam. de repente volta-se para mim e diz:
– sabe o que me custa? um gajo envelhece e elas continuam a passar sempre novas.
era assim que se aprendia a estar vivo na tasca do quim

memórias da minha coimbra (VII)


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coimbra; praça 8 de maio; a adelaide; 2014

o pinto e vítor gordo
 
 
o tropical é um café da praça da república que faz esquina mas, como a esquina estava a mais, cortaram-na. ficou um recanto acolhedor, no interior, para uma mesa, uma janela sobre a rua e, no exterior, um pequeno poial que servia de assento em dias de sol.
 
era nesse poial que eu, o pinto e vítor nos sentávamos a conversar e a apanhar um pouco de sol.
 
uma das características de coimbra é o modo como os estudantes habitam a cidade: quartos alugados, repúblicas, solares….. havia, porém, uma que era diferente, a “comuna dos galifões”, habitada fundamentalmente pelo núcleo anarquista de coimbra, na maioria rapazes bem constituídos.
 
o pinto e o vítor viviam na comuna, eram praticantes de halterofilismo e senhores de uma envergadura física de invejar. eu, com o meu 1,65m, podia bem sentar-me à sombra deles. e era isso mesmo que acontecia:
 
28 de setembro
 
– cravo, temos de ir ao josé falcão alertar a malta
– oh pá, aquilo é um ambiente tramado
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te costas
 
candidatura do otelo
 
– cravo, vamos fazer umas sessões de esclarecimento aqui à volta
– cuidado, vocês sabem onde nos vamos meter?
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te as costas
 
era sempre assim, um maoista e dois anarquistas. coimbra tem destas coisas.
 
quando acabaram o 6º ano de medicina, pediram um carro emprestado a um amigo e resolveram ir celebrar para a figueira da foz. a falta de hábito de conduzir – nessa época estudante com carro era bicho raro – o ser de noite quando saíram, uma curva traiçoeira na passagem de nível das alhadas….. e o despiste foi-lhes fatal.
 
dentro de renault 5, iam quatro. o carro incendiou-se e, segundo alguns, ainda se ouviram os gritos dos ocupantes, aprisionados dentro do carro.
 
quando o cortejo fúnebre passou em frente aos “galifões” eu estava ao lado do soveral martins, de punho erguido – caíam-nos lágrimas pelo rosto.
 
nestas memórias dei nota de alguns dos meus melhores amigos e de como sem eles coimbra para mim, já pouco tem de interesse.