o fim, minha amiga


a bateira dorme

aqui estou encalhada
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais uma serei
a somar às que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 (a bateira dorme; torreira)

a propósito dos 40 anos do 25 de abril


que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães

40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães

canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação

outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto

e patas sujas

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

canso-me


o alar da solheira no chegado, murtosa

agarrar o tempo
pelas pontas dos momentos
onde estive
onde estou
onde estás
onde estaremos

agarrar o tempo
como se não a areia por entre
os dedos
escorrendo imparável
sem destino que os pés
do tempo ele mesmo

agarrar o tempo
o exacto instante em que
tudo se condensou
para ser (e)ternamente belo
enquanto memória
presente

canso-me

o alar da solheira no chegado, murtosa

….enquanto escrevi, algures num recanto do tempo, os pescadores continuam alar as redes e a esperar que emalhado o pão da ria chegue para a janta….

(ria de aveiro; murtosa; chegado)

ver e sentir


 

 

ti manel joão e um saco de berbigão

ti manel joão e um saco de berbigão

 

(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)

 

se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não

ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles

quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde

falar de nós
isso busco
nada mais

fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir

 

(ria de aveiro; torreira)

 

ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem

pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)

o medo


 

a safar redes no chegado

a safar redes no chegado

 

 

o medo

queria-o de contornos

bem definidos

reconhecível

 

não assim

pressentido em cada frase

nos semblantes

na dúvida inserta a tudo

no tempo e nos modos

nos dias de cada um

 

amanhã

começará abril

o iluminado mês em que cravos

por armas se trocaram

 

amanhã

queria oferecer-te um país

colado no rosto de um povo

que tivesse nomes de gente desta terra

e não palavras estranhas

orçamentadas e frias

por habitantes

 

não tenho medo do medo

que dele conheci as manhas

tenho medo que tu o tenhas

e à sua sombra vivas

só por medo do medo

 

não te roubaram o sol

mas

terás de lutar por ele

de novo