aqui sentei outrora sonhos
rasguei outras folhas com outra raiva
a memória enche este espaço
na ria os olhos gastam-se
iniciando uma viagem impossível
onde a saudade não tem lugar
o que fui
o seu tempo teve
o que sou
o mistério de estar de novo aqui
entrego ao sol
para que arda e morra e arda sempre
deixa-te ser
existir apenas
sem pressa
passear os olhos
por onde tudo
é
no início
do início
ficar
não saber
de
indiferente
a vida
faz-se
no lento
percurso das águas
os homens
são barcos
para outra
aventura
deixa-te
ser
acordar o dia
dizem
não sabem
porém
onde os olhos
lavar
nascer aqui
é viagem
início
concede ao sol
(para ler com o vídeo, mais uma vez sem comentários, de Jorge Bacelar)
perder a noção de
ficar assim pendurado
dos olhos
não ser e ser muito mais
do que
aqui tão longe de
a vida é
deixo-me ir
espero que voem
um dia
e me levem
por sobre tudo
ah! os flamingos
turvas águas estas
em que estranhos peixes
de pasta pendurada
na barbatana direita
fazem soturnas viagens
por estreitos corredores
sombrios
luras farejam e não caçam
portas escancaradas
relvas macias
os esperam
sequiosos de serem mais
que do dono a voz
ah! raiva de não haver
caçadores e tiros certeiros
por aí
(o lado negro da luz
é trágico)