as mãos ainda e sempre


falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida

ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
 
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
 
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
 
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol

as mãos

(torreira)

solidariedade na ria de aveiro


 

são todos e são um só

 

mais não havia

que se houvera

mais haveria

a uma voz

respondem

não importa qual

todos a seguem

porque lhe  reconhecem

a justeza do mando

 

ser pescador

é trabalhar em rede

há, porém, buracos ainda

a remendar

ou não fossem homens

que da perfeição

nada sabem

senão o trabalho

de a tentar

 

(ria de aveiro;torreira; marina dos pescadores)

a minha ria


estranha beleza esta

erguida sobre

moribundos fundos

poluídos

contaminados

pela ganância do lucro

 

cantem a ria

cantem-na sim

depois de a terem silenciosamente

assassinado

cúmplices

no terem estado aqui sempre

 

vendam os postais

falem das belezas que queiram

exibam-se nas fotografias

nas ruas e nos largos

mas é de lodo

lama e podridão que falo

 

digo:

esta já não é a ria

que me viu crescer

 

esta é a ria onde ainda

há homens que colhem o pão

amargo e amargos

de se saberem tão pouco

nos actos de quem

tanto deles a barriga enche

 

esta é a ria

que me deixaram

mas que não deixo

 

(torreira; marina dos pescadores; maré cheia)

ti cravo_ memória de um verão


luminosos os dias
passaram

na memória desenhados
os contornos de um tempo cheio

entre mar e ria repartido
diversas as artes, os homens, as histórias

nas companhas com os homens
que dominam o medo
galgando o mar com gritos de:
bota! bota! bota!

na ria com os serenos
pescadores das bateiras
sobrevivendo até à próxima partida
para o arrasto, para o bacalhau
em busca do sustento que a ria nega

o zé rito
está a fazer um moliceiro novo
para a regata de julho
e o barco é de todos
ponto de reunião e união
“já foste ao barco hoje?”

duas miniaturas magníficas
feitas pelo ti henrique
enriquecem a minha galeria:
um moliceiro e uma caçadeira
temos projectos para outros

um jovem pescador do mar
quando me fui despedir
pergunta:

“oh ti cravo!
para onde é que vai?”

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)

o reflexo de ti


nocturno na ria
 
procura a
a beleza
essa que te recusas a
existe
onde tu
 
nada é
tudo pode ser
em ti a escolha
o querer
 
há luz
por dentro do silêncio
da noite
é a mais pura
a mais bela
a mais tua
 
não digas que não
sem saberes se
sem te procurares
o reflexo de ti
és tu ainda
 
saberás vê-lo?
 
(torreira; marina dos pescadores)