postais da ria (119)


palavras para mim

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as palavras necessárias

livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia

a minha neta mais nova
a rosarinho

junto um postal em forma de flor
e palavras do avô

ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor

porquê
quis saber

tinha palavras para mim

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há palavras à espera

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (118)


digo

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a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos

não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento

dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário

o mais são outras navegações

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(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)

postais da ria (117)


tempo

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ti zé costeira: o regresso da pesca

quando se perde tudo
o que a vida nos deu
para que serve mantê-la

para onde o ti zé foi
há-de haver uma bateira
uma cana de pesca

e tempo

muito tempo
que é essa a arte
do pescador

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sempre o conheci assim

(ria de aveiro; torreira)

o ti zé costeira partiu

postais da ria (116)


para o vilmar vidor

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a viagem do vilmar pode ser assim

aos amigos virtuais
uma amizade real os une

um nome um rosto
uma mensagem uma foto
uma vida para além da vida

por existirem num outro real
os amigos virtuais nunca morrem
nem sabem de partidas

por isso tu vilmar vidor
continuas comigo

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toda a beleza atravessa o oceano num barco para ate abraçar, vilmar

(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2014)

postais da ria (112)


ontem no mundo

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ontem em paris
ontem em áfrica
ontem na américa
ontem na ásia

ontem no mundo

a morte esteve nas ruas
invadiu as matas
atapetou os desertos
semeou corpos

a morte enche os dias
do meu tempo
como encheu o tempo
todos os dias
em todas as geografias

a morte pela mão do homem
não poder ser imortal

(ria de aveiro, murtosa; cais do bico)

postais da ria (111)


hoje é o dia

o espelho da ria

o espelho da ria

um dia
verás o que nunca viste
um dia
o inesperável acontecerá

então
dirás não o que sabes que é
mas o que gostarias que fosse
com isso tentarás confundir
o que queres com o que tens

então
quererás que a tua mentira
vença a evidência dos factos
seja a verdade que não existe
para continuares a ser o que já não

seres o que não és foi coisa
que te levou à ilusão de tentares ser
o que sendo nunca serias

hoje é o dia de ouvires
que já te ouvimos quanto baste

uma ria de homens e barcos, a minha ria

uma ria de homens e barcos, a minha ria

(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2012)

postais da ria (109)


o pescador escolhe bivalves com o redenho da cabrita dentro de água, depois de lavado das lamas

o pescador escolhe bivalves do redenho da cabrita, dentro de água, depois de lavado das lamas

“Sim, o teu olhar também
é um material,
a erosão ou as mãos de ou-
tros poderão talhá-lo de
acordo com o que sabem
e o que não sabem, o que
esperam e o que são capazes
de imaginar”

José Luís Peixoto, in “Em teu ventre”

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(ria de aveiro; torreira; cabritar)