postais da ria (107)


amputado

a harmonia da ria - esta foto está no meu livro "sou tudo o que aqui encontras"

a harmonia da ria – esta foto está no meu livro “sou tudo o que aqui encontras”

mesmo sem te ver sinto-te
a tua ausência dói-me
sei-te demasiado

não ando por onde andámos
para não te dar o braço
o que me cortaram

escrevo-me-te pa­ra sermos

sem vento e com velas, o esplendor da ria

sem vento e com velas, o esplendor da ria

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2012)

postais da ria (106)


ser pescador aqui

henrique brandão com um saco de 20kg de berbigão

henrique brandão com um saco de 20kg de berbigão

aqui
pescador é operário
em fábrica onde água
é chão

aqui
pescador é escravo
de quem dizem ser
patrão

apanhar, cirandar, escolher, ensacar, levar ao intermediário - circuito do berbigão

apanhar, cirandar, escolher, ensacar, levar ao intermediário – circuito do berbigão

(torreira; berbigão)

postais da ria (105)


o meu amigo ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

nos últimos anos
caminhava pesado até à bateira
a cana de pesca bengala
remava atá ao meio da ria
voltava com algum peixe para o almoço

os dias repetiam-se e ele dentro deles
dentro do silêncio dentro da bateira
na ria

primeiro arrumou a bateira
cobriu-a com plástico
depois morreu a mulher
o plástico começou a rasgar-se
e ele

falei-lhe quando já não era
mostrou-me a casa os troféus
contou-se por momentos
viveu

não sei como estará numa casa
entre quatro paredes auxiliares
refeições certas medicação a horas
um sofá a cama o silêncio os outros

onde a ria?
eu vejo-o sempre lá no meio
a dar vida às águas mortas

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

(torreira; 2015)

postais da ria (102)


a palavra que não quero

os contrastes são claros

os contrastes são claros

espero a palavra
por dentro das palavras

o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito

não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste

a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos

espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero

faço as horas e os dias

faço as horas e os dias

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (101)


haja uma pedra

toda a beleza num fragmento de tempo

toda a beleza num fragmento de tempo

é tarde para deixar de ser
os rios não voltam à nascente
nem me arrependo de ter nascido

sou o que cada dia descobre
o inesperado vindo do imprevisto
e não o somos todos?

na teia urdida por mãos hábeis
a arte é fazer crer que a vítima é outra
quando a aranha mata os pais

o mundo é cada vez mais dos répteis bífidos
fracos imitadores de animais sangue quente

haja uma pedra

sem elas a ria é um pântano

sem elas a ria é um pântano

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)

postais da ria (99)


eu só termino em mim

corrida dos chinchorros, os treinos

corrida dos chinchorros, os treinos

os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado

vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto

sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje

queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim

momentos para meditar

momentos para meditar

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)