postais da ria (105)


o meu amigo ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

nos últimos anos
caminhava pesado até à bateira
a cana de pesca bengala
remava atá ao meio da ria
voltava com algum peixe para o almoço

os dias repetiam-se e ele dentro deles
dentro do silêncio dentro da bateira
na ria

primeiro arrumou a bateira
cobriu-a com plástico
depois morreu a mulher
o plástico começou a rasgar-se
e ele

falei-lhe quando já não era
mostrou-me a casa os troféus
contou-se por momentos
viveu

não sei como estará numa casa
entre quatro paredes auxiliares
refeições certas medicação a horas
um sofá a cama o silêncio os outros

onde a ria?
eu vejo-o sempre lá no meio
a dar vida às águas mortas

a bateira do ti zé costeira

a bateira do ti zé costeira

(torreira; 2015)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s