para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

o princípio da incerteza


alar da solheira (joão costeira)

estou de novo em plena ria
o joão ala as redes
suspenso do que nelas emalhado
poderá vir
terá largado num sítio bom?
terá tido sorte?

não há certezas
para além do saber da arte

o princípio da incerteza
pode ter sido enunciado por um físico
aplicado às ciências quase exactas
mas é dele que a pesca artesanal se faz
sem saber de ciência alguma

o joão continua sem pressas
braçada a braçada
a rede entra no barco

nada mais lhe resta que ter tido
sorte

(ria de aveiro; torreira; alar da solheira)

o fim, minha amiga


a bateira dorme

aqui estou encalhada
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais uma serei
a somar às que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 (a bateira dorme; torreira)

a propósito dos 40 anos do 25 de abril


que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães

40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães

canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação

outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto

e patas sujas

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

canso-me


o alar da solheira no chegado, murtosa

agarrar o tempo
pelas pontas dos momentos
onde estive
onde estou
onde estás
onde estaremos

agarrar o tempo
como se não a areia por entre
os dedos
escorrendo imparável
sem destino que os pés
do tempo ele mesmo

agarrar o tempo
o exacto instante em que
tudo se condensou
para ser (e)ternamente belo
enquanto memória
presente

canso-me

o alar da solheira no chegado, murtosa

….enquanto escrevi, algures num recanto do tempo, os pescadores continuam alar as redes e a esperar que emalhado o pão da ria chegue para a janta….

(ria de aveiro; murtosa; chegado)

ver e sentir


 

 

ti manel joão e um saco de berbigão

ti manel joão e um saco de berbigão

 

(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)

 

se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não

ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles

quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde

falar de nós
isso busco
nada mais

fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir

 

(ria de aveiro; torreira)

 

ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem