dias de memória


 

regata de moliceiros, no bico, murtosa, 20017

 

passeio-me pelos dias
cheio de tudo e de nada
o que tenho me basta

há dias em que o cansaço
o desalento a desilusão
se somam e se tornam
maiores que o próprio dia
são os dias de memória

passeio-me por eles
como se os sobrevoasse
pesado e leve de tanto

chego e parto
fico porque

tudo começa
e acaba sem nunca

vou com as aves
escreveu o eugénio
eu quero ir com os cisnes

quero

(murtosa; bico; regata de moliceiros; 2007)

gorim


no guiador a chapa com o nome, obrigação legal

no guiador a chapa com o nome, obrigação legal

aprendi contigo que a terra
é nossa se nos saúdam

lembro-me do mais antigo tempo
eu jovem ainda quase gente
e tu
tu o homem bom de seres assim
de bicicleta os dois
e a saudação

bom dia senhor césar e companhia

eu era a companhia
a companhia que hoje permanece
por mais algum tempo
e a quem tu que já partiste há muito
continuas silenciosamente a acompanhar

isso fomos e seremos sempre
companheiros

o valor da palavra
mais do que dinheiro ou honrarias
a verdade acima da conveniência
o povo mais que os grandes
por bem que não por interesse

regresso a ti para ser eu
bom dia tio césar de ti o

gorim

 

(murtosa)

de pé


 

 

 

torreira, barco de maria de fátima

torreira, barco de maria de fátima

é tempo
é sempre tempo
de fazer

agarra o sonho
ele só existe porque tu
desistir é matá-lo
é morreres sem teres sido

não esperes a mão que te prometeram
sê as mãos que tens
com elas faz e faz-te
tu és o sonho a querer ser coisa de tocar

ergue-te
de pé
diz bem alto

hoje aqui agora
sou e quero que sejam

ir ao mar com marco (10)


 

 

já a manga de mão da barca corre para o mar

já a manga de mão da barca corre para o mar

o saco já está no mar (vê-se a cortiçada colorida à rectaguarda da bica da ré), o arinque do saco, a calima, também (é vermelha e está no mar, ligeiramente à direita da cabeça do pescador de azul). a manga da mão de barca sai por bombordo.

aproveite-se este momento para distinguir os dois modos de fazer um lanço:

– mão acima:  o barco entra no mar em direcção ao sul, a rede sai por estibordo e o lanço é feito no sentido sul/norte

– mão abaixo: o barco sai em direcção a norte, a rede sai por bombordo, e o lanço é feito na direcção norte/sul

o lanço que estamos a acompanhar é um lanço “mão abaixo”

o que define de modo simples, se quisermos, o tipo de lanço, é a direcção tomada pelo largar da rede.

para estas caracterizações socorri-me dos meus mestres e amigos arrais: joão calada e marco silva.

na ria as orientações são similares : norte-cima; sul-baixo, nascente-serra e poente-mar.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

por vezes toco a beleza


de tudo me fica
a tentativa vã
de querer ir mais fundo
à raiz das coisas
onde mora a memória
a casa se iniciou

sou apenas um que tentou
mais um que

semeio palavras e imagens
sonhos e amarguras
tempo a esmo
de histórias começadas e
nunca acabadas

acabarei
a boiar algures numa laguna
de tempo sem tempo
onde não serei
sequer coisa digna de se ver

olho a ria e admiro a beleza
das pequenas coisas
reencontrando nelas o imenso
do que vou perder

será sempre assim

(murtosa; cais do chegado)

ir ao mar com o marco (9)


 

 

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

 

este registo é a cores, porque só assim se conseguem visualizar, com mais nitidez, os detalhes de tudo o que se está a passar.

o saco já foi largado e vê-se, à tona da água, a cortiçada de cores variadas, distingue-se ainda à esquerda do meio da cortiçada, o saco, e ao fundo, à direita, o arinque do reçoeiro.

começa agora a ser largada a manga da mão de barca.

repare-se mais uma vez na atenção de toda a companha ao largar da rede.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

demora-te


 

 

 

ribeira da arei, veiros

ribeira da arei, veiros

demora-te
onde os olhos te falarem
com palavras por inventar

silêncios guardados há muito
esperam-te como se desde sempre
por ti ali para ti

0 tempo
o tempo que levaste a aqui chegar
foi o necessário para que fosses tu

escuta-te e depois parte
estiveste aqui e foste de novo
o segredo revelá-lo-ás a quem

és outro
(ria de aveiro; ribeira da areia; veiros)

basilius na feira medieval de penela (1)


 

uma figura, um artista, um projecto

uma figura, um artista, um projecto

 

 

Joaquim Vieira Basílio, também conhecido por “Mendigo Basilius”, nasceu a 15 de Abril de 1936, na freguesia de Ceira, em Coimbra.

Com uma grande paixão pelo teatro e pela poesia, desde cedo se iniciou nestas andanças, levando a todo o país a sua presença.

Com uma enorme presença cultural na região de Coimbra destacam-se as suas participações no Grupo Cénico da Casa do Povo de Ceira, de 1959 a 1965; no Grupo de Teatro de Sobral de Ceira, de 1975 a 1996; e na Cooperativa de Teatro Bonifrates, onde ingressou em 1997. Foi co-fundador do Grupo de Intervenção Poética e Animação Cultural “Os Sem Abrigo”.

Pedinte Medieval

Esta personagem conta já com 20 anos de existência, tendo nascido em 1992, aquando da I Feira Medieval de Coimbra. Daí até ao dia de hoje já esteve presente em centenas de feiras medievais ao longo do País, destacando-se Castro Marim, Guimarães, Montemor-o-Velho; Canas de Senhorim, Penela, Coimbra, Silves, Braga. Santa Maria da Feira, Óbidos e muitos outros eventos.

Com reconhecimento no estrangeiro, já participou em eventos pela Europa fora, com especial presença em Espanha e em Itália onde é muito querido.

Durante os anos 90 deu corpo a outra personagem “O Cego”, na Romaria do Senhor da Serra em Coimbra.

Com participação em outras actividades culturais, destacam-se as suas narrações e declamações de poemas. É também de salientar a sua presença no Grupo de Intervenção Poética e de Animação Cultural “Os Sem Abrigo”, que levou por toda a região centro do País, em inúmeras actuações.

(informação retirada de um desdobrável que me foi oferecido pelo Basilius)