postais da ria (121)


umbiguices

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a espera, o espelho, calma ria, calmaria

tenho do umbigo a noção
exacta da sua função
foi por ele que me alimentei
no ventre de minha mãe
nada mais

agora aí está melhor ou pior
desenhado na barriga
sem quaisquer funções
não perco por isso tempo
em contemplá-lo

a olhar para o umbigo
muito boa gente anda
no dizer afiado e simples
da sabedoria popular

sentam-se na sua vidinha
sabem todos os nomes
que abrem portas e janelas
não incomodam para
não serem incomodados

como eu os entendo
umbigo só há um
e agora a mãe é outra

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toda a beleza é pouca aqui

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2012)

crónicas da xávega (117)


as mortes da vida

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a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)

os dias são imensos
plenos de areia e mar
sal suor mãos peixe

como se penas as escamas
fazem delas aves
poisadas na beira mar
debicando peixes

são as mulheres da torreira
que à torreira do sol
ganham o quinhão de pão

chamo-as pelo nome
e a olívia
responde-me da memória

a vida está cheia de mortes

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a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)

(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (119)


palavras para mim

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as palavras necessárias

livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia

a minha neta mais nova
a rosarinho

junto um postal em forma de flor
e palavras do avô

ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor

porquê
quis saber

tinha palavras para mim

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há palavras à espera

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (167)


continuar

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“andar à vara”

o que resta de mim
é o haver ainda
uma flor por nascer
outras que pouco vejo
mas sinto minhas

abro os olhos cansado
cada dia mais seco

agarro-me às raízes
enterradas fundo no mar
ao moliço da ria antiga
vara espetada no lodo dos dias
empurrando um casco velho

abro os olhos cansado
cada dia mais seco

reinvento-me para continuar

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tanta arte quanto à vela

(torreira; regata do s. paio; 2010)

postais da ria (118)


digo

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a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos

não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento

dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário

o mais são outras navegações

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(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (166)


conversar

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viver é navegar à vela dos dias

somam-se na memória os nomes
guardam-se os rostos
ressoam os sons das vozes dos sorrisos

todos os dias
o tempo varre do sol
os que a mais
no seu critério intemporal

sem saberem que já não
suspeitando alguns o quando
muitos me vão deixando
e é imenso o peso da ausência

escrevo para os lembrar
conversar ainda

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há dias assim, cheios de tudo

(torreira; regata da ria; 2011)