postais da ria (128)


cheio só de mim

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um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

os moliceiros têm vela (177)


homens da ria

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eles podem ser o futuro, assim os deixem e apoiem

há moliceiros na ria
porque de paixão
estes rostos cheios

retesados corpos
na ânsia da vela
mais alto o mastro

voga o sonho
dentro deles

num amanhã
onde não estarei
serão eles os mestres
senhores dos ventos

homens da ria

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zé pedro miranda, joão magina e rui rodrigues (russo)

(murtosa; regata do bico; 2014)

postais da ria (127)


regressarão

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depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)

os moliceiros têm vela (176)


um dia eu também

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o “doroteia verónica” era assim

regressarei sempre
ao corpo
ao meu corpo ainda

esta coisa onde me
penduro
estendal de saberes

palavras sentires
por haver já
não muito para

uma folha caiu
levantou voo
ligeira uma ave

um dia eu também

ahcravo_DSC_4311_regata 2010

um moliceiro é assim

(torreira; regata do s. paio; 2010)

crónicas da xávega (123)


da raiva

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podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa

pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres

pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto

porquê

por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens

fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos

amarelecida espuma

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(torreira; companha do marco; 2013)