postais da ria (119)


palavras para mim

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as palavras necessárias

livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia

a minha neta mais nova
a rosarinho

junto um postal em forma de flor
e palavras do avô

ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor

porquê
quis saber

tinha palavras para mim

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há palavras à espera

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (167)


continuar

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“andar à vara”

o que resta de mim
é o haver ainda
uma flor por nascer
outras que pouco vejo
mas sinto minhas

abro os olhos cansado
cada dia mais seco

agarro-me às raízes
enterradas fundo no mar
ao moliço da ria antiga
vara espetada no lodo dos dias
empurrando um casco velho

abro os olhos cansado
cada dia mais seco

reinvento-me para continuar

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tanta arte quanto à vela

(torreira; regata do s. paio; 2010)

postais da ria (118)


digo

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a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos

não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento

dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário

o mais são outras navegações

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(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (166)


conversar

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viver é navegar à vela dos dias

somam-se na memória os nomes
guardam-se os rostos
ressoam os sons das vozes dos sorrisos

todos os dias
o tempo varre do sol
os que a mais
no seu critério intemporal

sem saberem que já não
suspeitando alguns o quando
muitos me vão deixando
e é imenso o peso da ausência

escrevo para os lembrar
conversar ainda

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há dias assim, cheios de tudo

(torreira; regata da ria; 2011)

postais da ria (117)


tempo

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ti zé costeira: o regresso da pesca

quando se perde tudo
o que a vida nos deu
para que serve mantê-la

para onde o ti zé foi
há-de haver uma bateira
uma cana de pesca

e tempo

muito tempo
que é essa a arte
do pescador

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sempre o conheci assim

(ria de aveiro; torreira)

o ti zé costeira partiu

os moliceiros têm vela (165)


fomos

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hoje será sempre o dia
em que tu eu nós

tudo o que foi é agora
tudo o que será agora é

estar vivo é ser hoje
com a sabedoria de ontem
o desejo de um amanhã

por entre os dedos
sempre por entre eles
a areia fina dos dias

um grão escorre e cai
fomos

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (164)


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meço o tempo pelo cansaço
por esta coisa chamada corpo
desistente quase de ser
dizendo-se a cada instante
sussurrando-se-me

é pelos olhos que regresso
e somos todos ainda
velas sobrevoando os dias
num bando de abraços

olhar é sentir ontem hoje
sentir só

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(murtosa; regata do bico; 2009)