da cidade

corre o norte na ria e os moliceiros
o silêncio enche-se de silêncios
sem palavras sem mãos sem música
uma ilha no meio do oceano
é paraíso
no meio da cidade é inferno
desabito-me

como se a motor
(ria de aveiro; regata da ria; 2009)
da cidade

corre o norte na ria e os moliceiros
o silêncio enche-se de silêncios
sem palavras sem mãos sem música
uma ilha no meio do oceano
é paraíso
no meio da cidade é inferno
desabito-me

como se a motor
(ria de aveiro; regata da ria; 2009)
algemas

alar da solheira
lembro-me de tudo
o que não quero
carrego comigo
memórias teimosas

silêncio, quero ouvir a ria
(torreira; alar da solheira)
falar de mim

um instante de tempo
os primeiros gestos
ninguém os viu
os primeiros sons
só ele os ouviu
a vida
inicia-se em segredo
como em segredo
permanece o seu fim
isso te queria dizer hoje
para falar de mim

do discurso da elegância
(murtosa; regata do bico, 2009)
palavras para mim

as palavras necessárias
livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia
a minha neta mais nova
a rosarinho
junto um postal em forma de flor
e palavras do avô
ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor
porquê
quis saber
tinha palavras para mim

há palavras à espera
(ria de aveiro; torreira)
continuar

“andar à vara”
o que resta de mim
é o haver ainda
uma flor por nascer
outras que pouco vejo
mas sinto minhas
abro os olhos cansado
cada dia mais seco
agarro-me às raízes
enterradas fundo no mar
ao moliço da ria antiga
vara espetada no lodo dos dias
empurrando um casco velho
abro os olhos cansado
cada dia mais seco
reinvento-me para continuar

tanta arte quanto à vela
(torreira; regata do s. paio; 2010)
digo

a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos
não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento
dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário
o mais são outras navegações

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)
conversar

viver é navegar à vela dos dias
somam-se na memória os nomes
guardam-se os rostos
ressoam os sons das vozes dos sorrisos
todos os dias
o tempo varre do sol
os que a mais
no seu critério intemporal
sem saberem que já não
suspeitando alguns o quando
muitos me vão deixando
e é imenso o peso da ausência
escrevo para os lembrar
conversar ainda

há dias assim, cheios de tudo
(torreira; regata da ria; 2011)
tempo

ti zé costeira: o regresso da pesca
quando se perde tudo
o que a vida nos deu
para que serve mantê-la
para onde o ti zé foi
há-de haver uma bateira
uma cana de pesca
e tempo
muito tempo
que é essa a arte
do pescador

sempre o conheci assim
(ria de aveiro; torreira)
o ti zé costeira partiu
fomos

hoje será sempre o dia
em que tu eu nós
tudo o que foi é agora
tudo o que será agora é
estar vivo é ser hoje
com a sabedoria de ontem
o desejo de um amanhã
por entre os dedos
sempre por entre eles
a areia fina dos dias
um grão escorre e cai
fomos

(torreira; regata do s. paio; 2012)
só

meço o tempo pelo cansaço
por esta coisa chamada corpo
desistente quase de ser
dizendo-se a cada instante
sussurrando-se-me
é pelos olhos que regresso
e somos todos ainda
velas sobrevoando os dias
num bando de abraços
olhar é sentir ontem hoje
sentir só
só

(murtosa; regata do bico; 2009)