canso-me


o alar da solheira no chegado, murtosa

agarrar o tempo
pelas pontas dos momentos
onde estive
onde estou
onde estás
onde estaremos

agarrar o tempo
como se não a areia por entre
os dedos
escorrendo imparável
sem destino que os pés
do tempo ele mesmo

agarrar o tempo
o exacto instante em que
tudo se condensou
para ser (e)ternamente belo
enquanto memória
presente

canso-me

o alar da solheira no chegado, murtosa

….enquanto escrevi, algures num recanto do tempo, os pescadores continuam alar as redes e a esperar que emalhado o pão da ria chegue para a janta….

(ria de aveiro; murtosa; chegado)

onde habita o olhar


quando o real se torna
virtual
e o virtual se torna real
a memória reside algures
já não onde
sequer como
era

apetece-me refazer tudo
e a mim também
para que o ter sido ganhe
em beleza o que perdeu
por já não ser

sou o criador
que abre as mãos
do que não pode guardar
e te encontro algures à minha espera

onde habita o olhar

(regata de moliceiros; bico; 2007)

um dia foi assim


o fim de um sonho

sei do momento a beleza
bebo-a insaciável de tanta
sei-a agora só
sinto-a como se coisa irreal
fugaz sem palavras para

recordo-a sempre que
sei que jamais se repetirá
que vendidos foram os barcos
levados os mastros
cortadas as bicas
não sei se ainda pousam
amputados de si
na ria do faz de conta

um dia foi assim
na ria
o sonho brilhou

(ria de aveiro; torreira; 2010)

somos o que juntos


 

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

 

 

somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força

ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no

aos homens da ria
aos homens do mar
ser só
só

é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)

nada sou


Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é 0-ahcravo_dsc_6187_regata-2011abw-1.jpg

ainda havia um bando de cisnes em 2011, cada vez menor

venho de muito longe
de onde os meus de perdem
na memória de terem sido
por serem diminutos na sua grandeza
homens e mulheres da ria e do mar

venho de muito longe
não estranhes por isso o meu cansaço
o desalento
as velas pandas
sem ventos de sonho
prenhes de memórias apenas

nada sou
que importa de onde venho
trago-te estes momentos
porque

são grandes de mais
só para mim

(regata da ria; torreira; 2011)

ver e sentir


 

 

ti manel joão e um saco de berbigão

ti manel joão e um saco de berbigão

 

(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)

 

se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não

ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles

quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde

falar de nós
isso busco
nada mais

fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir

 

(ria de aveiro; torreira)

 

ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem