os moliceiros têm vela (127)


vou dormir

como se num sonho

como se num sonho

deixem-me dormir
seja qual for o motivo não
me acordem

estou cansado de viver
olhos abertos dia e noite
cansado de ser só olhos

quero sonhar
sonhar o que podia ter sido
recordar apenas o que mereceu
ser sonhado
e nunca passou do sonho

deixem-me dormir
quero as janelas abertas
muita luz pelo quarto
senti-la dentro de mim
ser eu por momentos

deixem-me sonhar de olhos fechados
ter de novo a ingenuidade da criança
para quem o mundo é um brinquedo
e todos são companheiros de brincadeira

deixem-me dormir
não ser por alguns momentos
esta coisa ambulante
um corpo agoniado de tantos dias

deixem-me sonhar
nem que seja só hoje
o sonho desconhece o tempo
porque é todo o tempo

vou dormir

tempo de moliceiros

tempo de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (81)


dia da poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

alguns sabiam as letras
de ouvido
o nome seriam poucos
a escrevê-lo

foram poetas e partiram
sem cadernos
com as mãos e a vontade
de vingar
onde oportunidades houvesse

homens e mulheres
crianças ainda
calejados de fome
com sede de futuro

escreveram o nome
da terra negada
na geografia do mundo

é deles o poema sem palavras
escrito em línguas desconhecidas
que fizeram suas

é deles o dia
são eles a poesia

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (70)


maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

terem os homens
o tamanho dos barcos
unidos na mesma frema

falo da terra e uso
a sua linguagem
palavras inventadas
como tudo o que é
marca de lugar

indescritível o amor
indizível o sentir

olho-os e invejo neles
o serem assim
tão uns dos outros

maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

(murtosa; regata do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (58)


lembrando drummond

não se veleja sem vento

não se veleja sem vento

que coisa é o homem
carlos?

mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa

que coisa é o homem
carlos?

à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo

o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice

a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?

à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos

lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem

que coisa é o homem
carlos?

a força de querer ser
ou nada

de camões "engano ledo e quedo"

de camões “engano ledo e quedo”

(murtosa; regata do bico; 2010)

postais da ria (22)


 

manuel valas (vieira)

manuel valas (vieira)

 

caminhantes da ria
sabem por onde e quando

entre serra e mar
cima e baixo
navegaram anos muitos
à vela vara sirga
por esteiros cales secos

são eles que fazem
os cisnes voar

moliceiros
(ria de aveiro; murtosa; bico; regata 2012)

 

domingo, dia 3 de agosto, há regata no bico, murtosa. ainda ……

 

a preto e branco

a preto e branco

postais da ria (20)


 

 

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

 

estou onde os meus olhos
reencontro de mim
com o tempo mais íntimo

sou ainda o que vejo
não o que se vê
espelhado nas janelas dos dias

o que fui
o que de mim quisera
que não se perdesse
esse jovem louco e cheio de vida
o que se perdeu e se encontrou
para se perder de novo
e melhor se encontrar

o que fui
é no que sou
aquilo que te deixo
para ser ainda

guarda-o
como se a mim

 

(ria de aveiro; murtosa; bico; regata 2012)

 

domingo dia 3 de agosto, há de novo regata, ainda …. espero por ti

 

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