não trago novas


cais do chegado, murtosa

 

não trago novas

não as sei

há muito que caminho

tudo se repete

na ilusão

 

não trago novas

os nomes fui-os deixando

sobram alguns rostos

olhares mãos

palavras poucas

 

não trago novas

há muito que caminho

só isso sei

caminhar e perder-me

e é tanto

 

o pescador subirá para a bateira

onde o camarada o aguarda

partirão ambos a fazer a maré

eu

eu ficarei no cais mais um pouco

e regressarei a casa

 

são assim os dias

mesmo aqueles em que

não trago novas

(chegado, murtosa)

da margem


escrevo das margens

onde os olhos

marginais também

 

sou

mais um apenas

nos caminhos

por onde ando

desando

encontro desencontro

 

nos apertamos as mãos

e dizemos

de nós

sem tempo de antena

nem pressas de

 

na margem

não à margem

debruçado sobre

bem por dentro

no côncavo

dos dias

 

na margem sempre

de onde se vê melhor

o centro

cirandar amêijoa na torreira


 

joão magina e cipriano brandão a cirandar

joão magina e cipriano brandão a cirandar

 

cirandar

este documentário encerra a série dedicada à apanha de amêijoa na ria de aveiro, nomeadamente no canal de ovar em frente à vila da torreira.

para a apanha, e recordando, são utilizadas duas artes- cabrita alta e cabrita baixa – e a vulgar apanha à mão ou com uma pequena ferramenta (garfo).

a primeira selecção dos bivalves – em tamanho e género – decorre das próprias cabritas, que são diferentes consoante se pretende apanhar berbigão se amêijoa (as utilizadas na apanha da ameijoa têm dentes maiores).

depois de apanhadas as amêijoas são depositadas no fundo da bateira. terminada a maré, é necessário lavar e fazer uma segunda escolha tendo em conta o tamanho pretendido pelo comprador. esta operação é feita utilizando uma ciranda (ver no vídeo as variantes), que não é mais que uma “peneira”, de forma rectangular, cujo fundo é formado por varetas de ferro ou aço inox (as mais modernas) que joeira as amêijoas. há-as de madeira e de metal, para serem operadas por duas pessoas e, mais recentemente, as que são feitas a partir de caixas de plástico de embalar fruta, a que é aplicado no fundo uma grelha de aço inox, e que podem ser manobradas por uma só pessoa.

convém dizer que não são baratas, são feitas por encomenda e que as distâncias entre as varetas dependem do tamanho mínimo das ameijoas pedido pelo comprador.

depois de cirandar os bivalves apanhados, é ainda necessário fazer uma escolha manual, por causa dos diferentes tipos de amêijoa que foram apanhados. os preços de venda e as encomendas reportam sempre a uma determinada variedade.

o processo termina com a deposição das amêijoas em sacos de 10 kg, fornecidos pelo comprador, que são entregues nas zonas acordadas, nos dias e às horas ditadas pelo comprador, que é quem define tudo, a começar pelo preço.

 

o vídeo