tempo de memória


ribeira de pardelhas

ribeira de pardelhas

 

aqui sentei outrora sonhos

rasguei outras folhas com outra raiva

 

a memória enche este espaço

 

na ria os olhos gastam-se

iniciando uma viagem impossível

onde a saudade não tem lugar

 

o que fui

o seu tempo teve

o que sou

o mistério de estar de novo aqui

entrego ao sol

para que arda e morra e arda sempre

gente da ria


 

ahcravo_DSC_8322_japónica

 

 

seguem o
relógio
das marés
assim
se erguem

curvam-se
no lavrar
da lama
onde antes
areal

colhem
doridos
os frutos
nas mãos
garfos

gingam
as ancas
na dança
sofrida
do ser
aqui sempre
o regresso
de tanto
mar
de tanta
espera

são
a gente
da ria

 

para ler com o vídeo de Jorge Bacelar

 

ah! raiva


 

 

turvas águas estas

em que estranhos peixes

de pasta pendurada

na barbatana direita

fazem soturnas viagens

por estreitos corredores

sombrios

 

luras farejam e não caçam

portas escancaradas

relvas macias

os esperam

sequiosos de serem mais

que do dono a voz

 

ah! raiva de não haver

caçadores e tiros certeiros

por aí

 

(o lado negro da luz

é trágico)

 

marina pescadores, torreira

amo


 

apanha de ameijoa japónica na torreira

 

amo

o meu amor não é porém

explicitado em carícias ou volúpias

acolhidas no seio de palavras

metáforas ou onomatopeias

ansiedades frustrações e quejandos

sentimentos

 

numa linha apenas

encontrar as palavras certas

afiadas prontas a cortar rasgar

desentupir a cegueira de cinzentas

figuras gaspáricas e coélhicas

 

monstros de spielberg

provocatoriamente depositados

em país longínquo dele e tão nosso

para nos impingirem histórias

do maléfico autor fmi/merkel

parceria infalível em qualquer filme de terror

 

amo

a limpidez líquida do suor

que ganhou o pão

assim as minhas palavras