a alegria da xávega


 

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

 

um momento raro em que todos se juntam para o mesmo prazer: a xávega

o vitor, o alfredo e o rui, representam o abraço no mar, dos jovens, sejam eles portadores de deficiência ou não.

ao rui, de costas na fotografia, portador de uma deficiência mental algo profunda, não há maior alegria do que poder ajudar nos trabalhos do mar.

a alegria que foi para ele ir um dia ao mar, ler-lhe essa alegria no rosto, foi um dos momentos mais belos a que assisti.

 

(torreira; companha do marco; 2010)

massa, uma história de sucesso


 

massa, joaquim rodrigues

massa, joaquim rodrigues

o massa, joaquim rodrigues, é neto do arrais faustino, nascido na murtosa e arrais de renome em meados do século XX, com nome de rua na torreira.

mas não é esta a história que aqui quero deixar. é a dos pescadores e do vinho, uma relação explosiva e histórica, muito pouco entendida por quem devia olhar fundo a vida destas comunidades.

escreveu o almirante jaime afreixo, na revista “a tradição” de beja, um conjunto de artigos subordinados ao tema “Pescas Nacionais: A Região de Aveiro”, no qual, e cito de memória, faz referência a uma das formas de pagamento dos arrais aos pescadores:

a marinha

era paga antes do primeiro lanço do dia e era constituída por pão e um quartilho de vinho (meio litro) que podia ser reforçada, em dias de mar mais bravo, por uma dose de aguardente.

se considerarmos que nas companhas se entrava muitas vezes com 9 anos de idade, fica-se com uma ideia de como era feita a iniciação dos jovens no mundo do vinho.

no mesmo artigo, jaime afreixo, diz ainda ser normal que os arrais ou donos da companha serem também proprietários de tascas que forneciam o vinho.

falamos de finais do século XIX, princípios de XX.

o massa, conseguiu vencer o vício de anos e, sem quaisquer aditivos, cortou completamente com o álcool há já bastantes anos, e mesmo na companhia de amigos, nem uma cerveja…. tem sempre uma garrafa de água.

é de fibra este massa.

 

nota: ao citar de memória, posso ter cometido alguma menos correcta informação, mas a ideia fica

 

(torreira; companha do marco; 2010)

a propósito dos 40 anos do 25 de abril


que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães

40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães

canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação

outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto

e patas sujas

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

o bordão da regeira


 

 

o bordão e a regeira

o bordão e a regeira

 

ao largo já o barco, vencido que foi o mar, é tempo de arrumar os aprestos.

a corda que se vê presa à extremidade pontiaguda do bordão, de ter estado bem enterrada na areia, é a regeira.

foi recolhida pelo membro da companha que tinha como tarefa mantê-la tensa e desse modo perpendicular à vaga a bica do barco.

a regeira, relembro, é uma corda que é presa ao golfião de estibordo e impede que a corrente dominante de norte faça o barco atravessar-se.
(torreira; companha do marco; 2010)

o mar sempre


 

o maria de fátima a galgar a onda

o maria de fátima a galgar a onda

 

quantas vezes se faz
o barco
no fazer-se ao mar?
e os  homens
fazem-se?

ficar em terra
será destino outro
acomodado
de alguns

vencer a onda
ganhar o largo
ou pelo menos tentar
é desafio diário

ou morrer na areia

 

(torreira; companha do marco; 2010)

um dia foi assim


o fim de um sonho

sei do momento a beleza
bebo-a insaciável de tanta
sei-a agora só
sinto-a como se coisa irreal
fugaz sem palavras para

recordo-a sempre que
sei que jamais se repetirá
que vendidos foram os barcos
levados os mastros
cortadas as bicas
não sei se ainda pousam
amputados de si
na ria do faz de conta

um dia foi assim
na ria
o sonho brilhou

(ria de aveiro; torreira; 2010)