memórias de um almoço


 

dois bons amigos: nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

dois bons amigos: nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

 

a mesa
o respeito pelo pão
oferta merecida pelo trabalho
e a graça de deus
a fé e a coragem as armas
o respeito

a cabeça sob o sol inclemente
coberta sempre
descobre-se à mesa e na casa do senhor

não serei crente
mas crença maior não há
que a da gente do mar
a crença nestas gentes crente
é o abraço que nos une
rente ao mar

lavo-me neles

 

(torreira; companha do marco; 2010)

a caldeirada feita por mestres


 

os mestres cozinheiros: marco silva e agostinho trabalhito

os mestres cozinheiros: marco silva e agostinho trabalhito

 
os lanços da manhã deram raia, o almoço foi caldeirada.

o arrais marco silva e o agostinho foram os mestres cozinheiros, o resultado foi uma grande lanço sobre a mesa onde toda a companha se deliciou.

é tradição murtoseira que o cozinhar do peixe seja coisa dos homens, é tradição serem eles mestres cozinheiros de peixe. seja tradição ou não, o que é facto é que nuca comi caldeirada tão bem feita.

momentos como este são inesquecíveis

 

(torreira; companha do marco; 2010)

somos o que juntos


 

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

 

 

somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força

ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no

aos homens da ria
aos homens do mar
ser só

é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)

nada sou


Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é 0-ahcravo_dsc_6187_regata-2011abw-1.jpg

ainda havia um bando de cisnes em 2011, cada vez menor

venho de muito longe
de onde os meus de perdem
na memória de terem sido
por serem diminutos na sua grandeza
homens e mulheres da ria e do mar

venho de muito longe
não estranhes por isso o meu cansaço
o desalento
as velas pandas
sem ventos de sonho
prenhes de memórias apenas

nada sou
que importa de onde venho
trago-te estes momentos
porque

são grandes de mais
só para mim

(regata da ria; torreira; 2011)

ver e sentir


 

 

ti manel joão e um saco de berbigão

ti manel joão e um saco de berbigão

 

(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)

 

se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não

ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles

quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde

falar de nós
isso busco
nada mais

fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir

 

(ria de aveiro; torreira)

 

ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem

marco valente


marco valente "marquito"

marco valente “marquito”

 

o “marquito” para se diferençar do arrais marco. teria nesta altura 17 anos e o mar já lhe era familiar como se coisa de brincar. era, e é, de ir a todas, desde que o deixem.

a ele devo a designação que me integrou definitivamente na companha, quando no fim das minhas férias me perguntou:

– agora para onde é que vai, ti cravo?

não é fácil adquirir este estatuto, não se tira em nenhuma universidade que não a da vida. o grau de “ti” só os mais velhos, que merecem respeito e são da nossa gente, a ele têm direito.

obrigado marquito por me teres incluído na família

 

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, o saco, as nassas e as caixas


 

 

 

o arrais marco  silva a apanhar peixe com uma nassa

o arrais marco silva a apanhar peixe com uma nassa

 

o peixe é apanhado do saco, no canto inferior esquerdo ainda se vê o porfio, com a ajuda de redenhos, com aro de metal, as nassas,  e despejado para caixas grandes.

depois é espalhado no atrelado ou num oleado, e escolhido para caixas mais pequenas – cerca de 10 kg cada – por tamanhos e espécies.

para ir para a lota o peixe tem de ser lavado, e há duas formas de o fazer: num depósito grande com água do mar, de onde é retirado com caixas de carregar fruta (por causa das aberturas por onde sai a água), ou colocado dentro destas caixas, que são depois mergulhadas em água.

depois de lavado o peixe é finalmente colocado dentro de caixas de plástico com capacidade para cerca de 10 kg, cada.

(torreira; companha do marco; 2010)

pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)