BASTA!!!!!!


 

basta!!!!!!!!!!!!

basta!!!!!!!!!!!!

 

não nos queiram contar
fomos muitos
fomos indignação
protesto
fomos gerações
unidas massacradas
mas não vencidas

não nos queiram contar
fomos bastantes
revivemos o que pensávamos
já não
fomos ainda os mesmos
e muitos mais

isso te digo
cantámos e dissemos
basta!
basta!
ouviram?

estaremos cá
sempre
por nós
os que pela mão
ensinámos
a serem

estaremos cá
sempre
BASTA!

 

o vídeo

 

 

manuel antónio pina, na figueira da foz (6)


 

manuel antónio pina na revista sábado

manuel antónio pina na revista sábado

 

de manuel antónio pina

 

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

 

Do livro “Aquele que Quer Morrer”

 

o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (5)


 

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

do autor:

 
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
“Os gatos”, de Manuel António Pina

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

 

para ler com o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (4)


foto de lucília monteiro

foto de lucília monteiro

 

de manuel antónio pina

 

A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

 

manuel antónio pina, figueira da foz 2012 (3)


foto de helder sequeira no correio da guarda

foto de helder sequeira no correio da guarda

de manuel antónio pina:

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia

manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (2)


manuel antónio pina (foto de alfredo cunha)

foto de alfredo cunha

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

de Cuidados Intensivos(1994)

maria teresa horta nas quintas de leitura


mth2

no passado dia 31 de janeiro, na biblioteca da figueira da foz, tive o prazer de estar entre os que puderam ouvir e sentir o ser de uma grande escritora.

desses momentos memoráveis ficaram os registos que se seguem.

espero que sintam neles o pulsar da vida e o prazer de a compartilhar

 

 

 

 

 

 

 

 

sobreviver na ria de aveiro


o peso do pão

o peso do pão

A sobrevivência dos pescadores da ria de Aveiro e, nomeadamente, do concelho da Murtosa, depende das seguintes capturas:

– enguia (cada vez mais escassa e, por isso mesmo, com cada vez menos pescadores a sobreviverem da sua pesca)

– choco, linguado, sável e lampreia (espécies sazonais e complementares, capturadas com artes de emalhar)

– bivalves (berbigão e amêijoa – de várias qualidades, sendo a predominante a “invasora”, denominada “japónica”. A apanha só é interrompida caso sejam detectadas nas águas microorganismos perigosos para a saúde humana e é feita recorrendo às seguintes arte legais: cabrita alta, cabrita baixa, à mão e em apneia com tubo.

A beleza das imagens registadas no vídeo é uma das maravilhas da ria, o espanto permanente dos que têm o privilégio de a conhecer perante a magnificência dos espectáculos que ela proporciona.

ahcravo

para ler com o vídeo de jorge bacelar