joão da calada_arrais da torreira


joão da calada

joão da calada

todas as fotos têm uma história, todas falam para além do que diz a imagem. esta foi, sem dúvida, a foto que mais trabalho e paciência me pediu.

o joão da calada sem boné!!!!!!!!!!!!!

um pescador da velha escola, como o joão, só se descobre perante deus.  para esta foto foi necessária a cumplicidade daqueles que numa tarde de agosto e de nortada, se tinham recolhido na tasca do joão para umas jogatinas de cartas ou dominó e, por brincadeira, conseguiram tirar o boné ao joão. depois, depois foi preciso ser muito rápido, porque a visão foi de segundos. ficaram 2 registos desse momento.

o joão foi, e é ainda, o meu informador, mestre e companheiro na aprendizagem da xávega, na obtenção dos nomes dos homens e  mulheres das companhas que fui registando ao longo dos anos. o joão é meu amigo.

homem do mar e da ria, sei dele o pouco que conta. o joão é pescador e as palavras são sempre as necessárias. as minhas primeiras fotos de barcos de mar foram do barco de mar “óscar miguel”, de que era dono e arrais do joão da calada. tenho em minha casa as miniaturas, feitas pelo ti henrique afonso, dos seus 2 últimos barcos.

como arrais à moda antiga, o joão tinha, e tem, uma tasca onde os pescadores da companha compravam o vinho e se juntavam, para convívio.

a tarefa mais difícil, que ainda espero conseguir levar a cabo. é fazer com que o joão me conte a sua história, pelo pouco que sei dele será uma história muito rica sobre a torreira e a pesca da xávega, na segunda metade do século XX.

(torreira, 2005)

zé serra


 

zé serra

zé serra

 

 

caixas no mar lavadas
leito último do carapau
onde o serem dele rasas
dirá quanto o lanço deu
em peso aproximado

nunca o valor em dinheiro
que esse só na lota
os compradores
quantas vezes combinados
em pouco mudarão o muito
em quase nada o tanto suado

dirás no mercado ao vê-lo
em cima da pedra a brilhar
que o peixe é caro
o preço elevado
e te sentes roubado

serás então igual ao pescador
mais um
na cadeia da exploração
de um outro mercado

 

(torreira, à memória do arrais zé murta, 2009)