nicole e o carapau


nicole

nicole

 

 

está a acabar a minha safra fotográfica do ano de 2010, os momentos aproximam-se do fim. foram muitos, mas este é um dos que mais me toca.

o nicole veio da ucrânia em busca do oiro português, como muitos seus compatriotas trabalhou nas construção civil, sem contrato, sem horário, sem condições.

até que um dia, os músculos cederam ao martelo compressor e o braço ficou incapaz de contribuir para a sua subsistência na construção civil.

veio para a torreira onde, dizia ele, tinha encontrado entre os pescadores uma nova família. vi-o sempre bem disposto porque era verão.

2010 foi o seu último ano em portugal, regressou à ucrânia e pouco tempo depois morreu.

entre nós ficaram laços de amizade selados pelo mar e seus frutos.

por mais que fale do nicole, nunca digo tudo, porque nunca sou capaz de me despedir dele, continua a sorrir e a estar aqui.

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)

acender o instante


por detrás da mão, mário laginha

por detrás da mão, mário laginha

 

regresso

ao silêncio vestido de música

das notas escritas numa folha

não as entendo

olhos guiam mãos fraseados

que se perdem na criação de

 

escuto

a fuga das vozes para uma só boca

o marfim rebrilha à carícia dos dedos

estendo os olhos por sobre a sombra

busco uma luz possível

 

acendo o instante

 

(tone music school, coimbra; abril 2014)

 

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um piano
um homem
uma voz
uma mulher

jazz

laginha, o mário
rita maria
os que souberam
foram felizes

momentos luminosos

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recriação da xávega; praia da vagueira, 2008


 

juntas de bois na praia da vagueira

juntas de bois na praia da vagueira

 

neste registo feito em 2008, na praia da vagueira, com a companha “o vencedor”, notam-se as seguintes características na junta de bois em primeiro plano:

 

– a canga é gandaresa, pequena e sem as decorações ricas das cangas vareiras

– os bois pequenos, demasiado para a tarefa que lhes é pedida (maiores os marinhões, bois de força criados para trabalhos pesados)

 

são estes pequenos pormenores que permitem identificar o onde e o como a memória é recriada.

 

(praia da vagueira; 2008)

um presente para gabo


guardei-te um momento
longe de tudo
o que te era familiar
queria-o assim
único

presente de um passado
em que te habitei sem o saberes
em que fui outro só porque
te conheci sem que me conhecesses
eu era apenas mais um
de entre todos os que para ti
eram o mundo

hoje continuo a ser teu habitante
quando tu já não te sentas na cadeira do costume
com os amigos de sempre
porque partiste
para lado algum
partiste
só isso

abraço-te agora como nunca
por dentro das palavras que deixaste
para mim não partiste
pela simples razão que sempre te tive
como te tenho hoje
embrulhado em palavras mágicas

são para ti estes barcos
gabo
navega com eles e sê onde

encontramo-nos por aí

murtosa; regata bico; 2007

hoje morreu gabo e não morreu


cabrita de pé nos cabeços da ria

o tempo gabriel
o tempo
o tempo que tu tão bem
construíste e desconstruíste

algures  na floresta de maconde
um coronel
mortes anunciadas
(a tua a nossa a de todos)
cem anos
putas tristes
quantas histórias
fantasticamente reais
os buendia sempre

o tempo levou-te
o tempo
de estares aqui gabo

a névoa envolve tudo
a labuta dos dias da escrita
dos jornais dos livros dos editores
das palavras
gabo

por entre uma outra névoa
três homens arrancam da lama da ria
com que sobreviver nesta terra
nunca te leram
não sabem quem és

mas foi para eles
foi por eles que escreveste

abraço gabo

(torreira; cabrita de pé nos cabeços)

a alegria da xávega


 

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

da esq. para a a dirt: vitor caravela, alfredo amaral e rui

 

um momento raro em que todos se juntam para o mesmo prazer: a xávega

o vitor, o alfredo e o rui, representam o abraço no mar, dos jovens, sejam eles portadores de deficiência ou não.

ao rui, de costas na fotografia, portador de uma deficiência mental algo profunda, não há maior alegria do que poder ajudar nos trabalhos do mar.

a alegria que foi para ele ir um dia ao mar, ler-lhe essa alegria no rosto, foi um dos momentos mais belos a que assisti.

 

(torreira; companha do marco; 2010)

até quando?


os cisnes da ria ainda em bando

tudo agora é aqui
assim te sentes perante estas imagens
nada existe para além de
nada é
nada

suspendeste o tempo
és

regressas por instantes e
refazes tempos e cenários
a memória é a mão que te guia
nesta viagem quase impossível ao tempo
quando
ao lugar onde
tudo é recriado para ser mais ainda

suspendeste o tempo
sacodes o cabelo
voas no vento onde os cisnes

até quando?

os cisnes da ria ainda em bando

(regata de moliceiros; bico; murtosa; 2007)