da natureza e do amor


era manhã
muito cedo ainda

ensonado o sol recusava-se a rir
a névoa que cobria os campos
era um véu tímido que lhe tapava os lábios

lentamente o dia
espreguiçou-se, bocejou
iniciou o ritual do levantar

escondido
atrás de uma erva pequenina
a tudo assistia estupefacto
no momento em que chegaste

vinhas de muito longe
poisada numa folha verde
trazida pelo vento gelado da manhã
eras nova no prado
ninguém te conhecia

para mim sorriste
e as outras abelhas
invejaram-me a companhia

memória de 06/01/2013


a morte do fotógrafo

ericeira; 2009
foi a enterrar hoje

em setúbal

terra onde nasceu

eu também

e fotografou com

o coração

o  meu primo zé pinho


onde quer que

estejas zé

regista a eternidade

para a eternidade


aqui fica uma imagem do mar

onde sado morre

para renascer imensamente
maior


assim tu

abraço forte


guardo o livro de fotos que publicaste

os postais de natal que eram fotos tuas

guardo-te

ericeira; 2009

2021 – relatório e contas


perdi definitivamente o meu pai


                                        (selfie na bilbioteca habitada)

não publiquei nenhum livro
não ganhei nenhum prémio
fui apanhado pela doença de bowen
vá consultem o dr. google

perdi definitivamente o meu pai

não contraí covid ainda
já tomei as três doses e observo as regras
ganhei resiliência gosto da palavra 
embora não saiba muito bem 
o significado está na moda convém usar
aumentaram as desilusões
morreram alguns amigos 
li muito fotografei o que pude
gravei poetas e juntei umas letras
fiz e reforcei amizades os amigos sempre

não arranjei mulher
mas ganhei uma sogra
uma desgraça nunca vem só

de resto exames e análises foram bons
o meu urologista queria-os para ele
as rotinas confirmam que tirando
o que está mal o resto está bem

estou vivo e continuo a inventar

dizer que isto é poesia faz-me rir
mas é o melhor remédio e por isso mesmo
comparticipado a cem por cento pela adse