postais da ria (84)


vai-se o tempo fica o tempo

o retrato do silêncio pleno

o retrato do silêncio pleno

tudo tem o seu tempo
nem sempre porém há tempo que baste
no tempo que temos

se sou tudo o que fiz
o que não farei é um eu ausentado dos dias
um já não estar onde

despeço-me de mim não fazendo
amputações fragmentadas
desta coisa corpo gasta pelo tempo

isto queria dizer-te por ser o que sinto
por ser o tempo em nós
sonho de continuar a ser no sobreviver

virá o tempo sem tempo sem mim

quando eu saí do retrato

quando eu saí do retrato

(ria de aveiro; murtosa; bico)

descansemos em paz


pôr do sol no bico, murtosa

pôr do sol no bico, murtosa

concebe o silêncio

como uma música onde as palavras

se buscam e purificam

 

escuta-o

sente como são belos estes momentos

em que o silêncio te rodeia

 

sê parco nas palavras

e grande nos actos

cresce para o silêncio

 

um dia

sim um dia

ele crescerá para ti

 

até lá

que descansássemos em paz

isso desejava

são eu de novo


cais do bico, murtosa

 

nada dizem agora

as palavras

apenas os olhos

se abrem sobre

vês

 

o filme

silenciosamente

enche-te de memórias

e era ali

e já não é aqui

quem era já foi

tu

tu também

 

moliceiros mercantéis

caçadeiras

barcos da ria de então

deles cheia

esse sim o tempo

que cala as palavras

 

olhas apenas

recordas

revives

és de novo

e tantos

tanto

contigo

ama tudo


à tona da maré

 
o sorriso
na face
à tona
dos dias
 
nada é tão
pesado
como a tristeza
de não ser
 
canta
o estares aqui
mesmo se
 
és
nada mais
que tu
aceita-te
mas não desistas
de ser mais
 
sem pressas
sem angústias
acorda os dias
em que estás
por vezes
sem saberes como
 
sorri
e ama tudo
que tudo
é
 
(murtosa; bico)