postais da ria (44) – um moliceiro à maneira


o moliceiro "cristina e sara", do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

o moliceiro “cristina e sara”, do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

reconheço-lhe a elegância
no fino traço dos mestres construtores
a tradição inscrita na beleza
com que vogava e ainda voga
nas águas da ria

passou o tempo do adubo natural
do moliço colhido no fundo da ria
broa de milho comida à mesa
com sabor a maresia

foi o tempo do trabalho da ferramenta
não foi o fim do tempo
mas o começo de uma nova aventura
a do amor por ti pelo que foste pelo que és
o da preservação da história de um povo
o murtoseiro

não te quero num canto qualquer coberto de pó
abandonado pelos que ajudaste a crescer
pelos falsas manifestações verbais de afecto
não quero sequer que te façam um retrato novo
onde já não moras porque nunca foste
para melhor venderem o que já não têm

quero-te assim
um moliceiro à maneira

um moliceirinho à maneira

um moliceirinho à maneira

regata de moliceiros, bico, 2014


à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

 

(isto não é um poema. quem dera fosse)

 

procurei e não vi
como eu muitos
perguntando por

onde o cartaz
a imagem
as letras gordas
a  divulgação
o barco ainda vivo
a regata
o moliceiro?

onde?

procurei e encontrei
mas era diverso
o que os meus olhos
as gentes marinhoas
uma junta de bois
outra freguesia
isso sim
mas não devia ser só

por vezes os discursos finais
só servem para mascarar
falsas partidas

assim vamos por cá

 
(ria de aveiro; murtosa; bico; agosto, 2014)

 

postais da ria (21)


 

 

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

procura o instante
o tempo dentro do tempo
o momento em que

sem vento
tudo parece parado
à espera
nada mais ilusório

é parado que o tempo
anda mais depressa

vive agora o ser agora
o que foi
o que será
são isso mesmo

bebe o mais ínfimo
fragmento da luz
fabrica o teu instante

já passou

 

 

(domingo, dia 3 de agosto, há regata no bico, ainda ….. aparece)

a memória


 

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

estou cansado
também eu tenho
direito a não escrever
a ficar assim sem dizer nada
fazendo de conta que digo
só para que penses
que leste

é melhor ficar por aqui
sem nada ter dito
no engano de escrever
só para que julguem
que ainda não morri

o cansaço não chega
à memória
isso vos ofereço hoje

 

(murtosa; bico; regata moliceiros, 2007

agar ou a memória de um moliceiro


 

 o agar nos secos do bico esperava. queimado por ordem de quem poderes tem

o agar nos secos do bico esperava. queimado foi por ordem de quem poderes tem

 

olho ainda o que já não
guardo-o em mim
coisa minha de ter sido

as chamas comeram-lhe
o que o tempo deixara

contarás as imagens
que prémios ganharam
e era ele a personagem central
loucura pensar que por isso
ficaria mais

um bico no bico
de cimento e azulejo
aponta o céu
virado ao mar
virado ao mar

o fim já tinha começado

 

(ria de aveiro; murtosa; bico)