de tanto olhar
ouvi o silêncio
ser pescador é assim: ser baptizado com um nome, crescer com a alcunha da família e, quantas vezes, ganhar por si a alcunha por que será conhecido.
com o joão manuel neto foi assim, como é e será enquanto pescadores houver.
fotografei o avô, alfredo, o falecido tio antónio, o pai manuel e outros da família, todos netos de apelido de registo.
há quantos anos conheço o joão…. acho que nenhum de nós sabe, mas ambos sabemos que, para além da fotografia há uma coisa muito mais forte: a amizade.
abraço joão, são homens como tu que enriquecem as artes do mar e da ria da nossa terra e mostram que ainda é possível ser “pescador da torreira”, assim os homens que mandam neste país lhes reconheçam o real valor.
(torreira; marina dos pescadores; safar redes)
amo
o meu amor não é porém
explicitado em carícias ou volúpias
acolhidas no seio de palavras
metáforas ou onomatopeias
ansiedades frustrações e quejandos
sentimentos
numa linha apenas
encontrar as palavras certas
afiadas prontas a cortar rasgar
desentupir a cegueira de cinzentas
figuras gaspáricas e coélhicas
monstros de spielberg
provocatoriamente depositados
em país longínquo dele e tão nosso
para nos impingirem histórias
do maléfico autor fmi/merkel
parceria infalível em qualquer filme de terror
amo
a limpidez líquida do suor
que ganhou o pão
assim as minhas palavras
em verdade
em verdade te digo:
é tudo mentira
e é preciso muita lata
saberás de quem falo
que todos falam dessa gente
em verdade
em verdade te digo:
barrigas cheias
belos carros
grandes arrotos
chorudos ordenados
gandas bacanais
um ar de superioridade
bem cultivado
gravata a condizer
com o perímetro do pescoço
(o que até dá jeito)
pensam-se em roma
e gaspar o ser perfeito
de oiro as palavras
te levaram
hoje negras
desditas
escreve sobre a água
a limpidez das ideias
lava-as
a lama cobre o fundo
da ria
assim também
vais descobrindo
o para além das palavras
que te disseram
poisada nas águas mansas
da ria
uma bateira acorda
e tu?
(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)