torreira; xávega; ahcravo
patrícia carinha
sonho um beijo de ondas
lábios de espuma
sobre os meus
estou viva
na areia quente o meu corpo
encontra regaço para a ternura
sonho
aroma do mar
sol a queimar-me a pele
quebrar de ondas na areia da praia
espero
uma mão sobre a face
sei que vens
o mar não mente
e ele disse-me que vinhas
(torreira)
mulheres do mar da torreira
as cordas pesam
maria filipa murta
falecido zé trabalhito
agostinho trabalhito
do agostinho trabalhito (canhoto) muito haveria que contar, mas fico-me pelos últimos anos.
trabalhou na companha do falecido zé murta e trabalha agora na companha do marco. a corda ao pescoço serve para atar a manga antes do calão e, assim, impedir que alador “coma” e quebre o calão.
pelo caminho lavou pratos num restaurante e dedica-se à pesca à cana (ainda de bambu) para apanhar peixe mais “grosso” que aumente a dispensa da família ou para vender aos restaurantes.
dos muitos irmãos que tem não posso deixar de recordar dois já falecidos: o zé trabalhito e ti antónio trabalhito, ambos homens de mar, ambos homens da torreira
( torreira_companha do marco_2010)
a escolha
é tempo agora
de escolher o peixe
separá-lo por tamanho
espécie
valor de mercado
toda a companha
se reúne em torno do estrado
do reboque do tractor
em tempos era na areia
mais tarde em cima de um oleado
hoje é mais frequente assim
depois há que lavar o peixe
colocá-lo nas caixas e levá-lo à lota
ou vendê-lo a algum veraneante
farto da carne urbana
assim se vive do mar
e se dá vida a quem o visita
(torreira_companha do marco)
o massa e o pedro
e já não basta o massa
o pedro veio dar uma mão
e não são dois são três
que o massa
para quem o conhece não é um
são dois
a matemática do olhar
não é a matemática do ser
o carapau deu à costa
é de bom tamanho
urge regressar ao mar
nova colheita
a prometer e a não desleixar
ao massa e ao pedro
as costas rebrilham de sal
suor e escamas
assim se ganha o pão
que sai do mar
(torreira_companha do marco)
chamem o massa
responde pelo alcunha de
massa
responde pela força dos
braços
responde pela entrega
ao mar
responde pelas nassas
de peixe cheias
que mais ninguém
não é um
são muitos nele
responde no recato
dos amigos
em momentos de alegria
tão natural como o mar que
o embala
cantando o fado
que fado carregou
e soube vencer
(torreira_companha do marco)









