tem de mudar


quantos anos a olhar o chão

ana?

 

da barraca para o mar

o alfredo criança ainda

a teus pés de mãe

 

são de areia os teus caminhos

de areia o chão da barraca

de areia a tua vida

esboroa-se por entre os dedos

o  trabalho

sem outros frutos que não o parco peixe

 

quantos anos a olhar o chão

ana?

quantas como tu de cabeça

baixa?

 

habitas ao pé do sonho de muitos

mas só isso

que teu é o pesadelo dos dias

de seres da casa o homem

e de teres criado o teu filho

a força de braço

só os teus

 

será já tarde para ti

a mudança

mas nunca é tarde para quem te vê

sentir que tem de

 

(torreira; companha do marco; 2010)

quando o mar trabalha na torreira_carlos aldeia


para que me servem
os olhos
senão para te ver

quando aperta o norte
vagas são muralhas
a arte não vai ao mar

fico-me então na areia
de pé a olhar-te
no pulsar das ondas
coração teu

para que me servem
os olhos
senão para ver

de quantas cores
te fazes
sempre o mesmo
nunca igual

para que me servem
os olhos
senão para te falar

contar-te isto de ser aqui
pescador da xávega
histórias tantas
a partilhar

(torreira, século XX)

não há liso (o vitor revisitado)


vitor caravela

 
como são longos os dias
longe do mar
olho o teu retrato
e estás de novo ao meu lado
 
um sorriso nos lábios
a alegria de estar aqui
no mar
no nosso mar, vítor
 
há dias em que a tristeza
e a memória
fazem maré cheia
e são ondas e ondas
em que se não vislumbra um liso
 
porque tem de ser assim?
 
vamos resistindo
deixando pelo caminho
amigos, família
a solidão cresce
vítor
 
como são longos os dias
longe do mar
a solidão cresce
vítor
a solidão cresce

quando o mar trabalha na torreira_antonio murta


antónio murta

 
(fala a um amigo que …. )
 

recordo-te

a alar cordas e redes
nas vozes de mando
que ao arrais cabem
nas conversas que tínhamos à beira mar
por entre o rebentar das ondas
e os gritos das gaivotas

recordo o mar

o teu mar
que vi crescer nos olhos
dos pescadores
quando te disseram adeus
regueiras
que lhes rasgavam o rosto
e caíam na terra seca
feitas pedras

recordo-te

há um mar que teima em crescer
dentro de mim
as ondas rebentam-me no peito
gritam-me aos ouvidos o teu nome
não há noite em que te não veja

recordo-te

no silêncio da tua ausência
continuo a ouvir a tua voz

(torreira)

quando o mar trabalha na torreira_david carinha


david carinha

 

dias há
em que o vento leste
amansa as águas
enquanto a nortada descansa

então
os barcos deslizam cisnes
fazem-se ao mar

como crianças
ao colo materno

dias há
de bonançosas ondas
que afagam os cascos
os recebem com braços
de amante

dias há …
mas quantos ?

são tão escassos

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_massa


massa
 

além onde
as cores se confundem
mar e céu se unem
mora o meu sonho
o meu desejo

um barco parte
nele somos mais que nós
levamos connosco
raça que herdámos
de um tempo
antes do tempo

sobre o mar caminhamos
sem medos de vagas
correntes ventos
de onde viemos
para onde vamos
é um caminho que fazemos
de espuma a ferver

além
para além ainda
da linha do horizonte
morarei sempre
onde o sol nascer

(torreira, século XX)