quando o mar trabalha _rico


rico

dentro de mim
o menino dorme

a criança que deveria
ter sido
pouco tempo o foi
esgotou-se quando comecei a andar

correr atrás dos bois
redes barcos mulheres
o meu brincar

hoje já sou mais um
sei onde mora o pão
quanto custa ir buscá-lo

quando como
o peixe sabe-me a mar e suor
gritos e corridas
ondas e areia

dentro de mim
o homem já é

manuel pego


torreira; manuel pego; anos 90

aqui todos ajudam
a faina é dura
os amigos muitos

não há tempo para mudas
o mar chama urgente
o barco já largou
é preciso começar a lide
em terra

aqui todos somos um
os braços juntam-se no puxar das cordas
no empurrar dos barcos
aconchegar das redes

irmãos somos
da terra viemos
para aqui sermos todos um

torreira; manuel pego; anos 90

aurora proa


 

aurora proa

 

sou mulher que baste
neste mar de homens
rainha dos ventos e das areias
senhora de muitos saberes
e sofreres

sou mulher que baste
para dizer o que sinto
gritar com a canalha
homens e mulheres
que vêem não o trabalho mas a festa
de estarem de férias
terem espectáculo grátis

arrancam das redes
o peixe miúdo
a sardinha que salta
o jaquinzinho que morre sufocado

deixai o peixe a quem por ele lutou