“ode ao sonho” de antónio josé cravo


ode ao sonho

por ti
reinventei as manhãs
e dei nomes às crianças
que encontrei pelas ruas

por ti
gritei até enrouquecer
disse às aves um segredo
que nem o vento pode saber

por ti
fui ao encontro dos velhinhos
que se sentam nos bancos dos jardins
à espera da morte
e falei-lhes de amor
e eles riram e choraram e voltaram a rir

por ti
fui cavaleiro na guerra dos cem anos
e trazia na algibeira da armadura
a tua fotografia ao sol 
em acapulco

por ti
vendi fruta nos mercados
canastra à cabeça, sardinha pelas ruas
afiei navalhas e tesouras
arranjei guarda-chuvas
alegrei as gentes com a minha gaita de beiços
e os meus pregões

por ti
atravessei o polo com o capitão scott
subi o mississipi com o tom sawyer e o huckleberry finn
estive em lilliput com gulliver
enamorei-me das fadas dos irmãos grimm
dancei com os duendes nas florestas da irlanda
procurei o pote das moedas de oiro no fim do arco íris
aprendi com as sereias os cantos de amor que enlouqueciam os marinheiros
fui ícaro e voei
estive com alexandre magno no fundo dos mares
e derrubei obelix num combate limpo corpo a corpo

por ti
sentei-me numa rocha erma no alto da serra
e falei com as nuvens
e encontrei a paz
e depois desci da rocha
e sentei-me a teu lado
onde a terra era mais macia
e a tua mão mais húmida

por ti
parti e voltei
e voltei e parti
e a terra foi pequena
e os mares foram estreitos
e o tempo foi imenso
e tu estavas no fim de cada de partida
e no início de cada regresso

por ti
morri enfim
para que fosses só minha 
e eu de mais ninguém 

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