postais da ria (49) – andam por aí


a serenidade convida a pensar

a serenidade convida a pensar

conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para

não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de

gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam

esperam sempre
andam por aí

ahcravo_Imagem 2385 bateiras marina noite

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (48)


a aparente calma da ria

a aparente calma da ria

aos senhores da terra

de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é

erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal

ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco

quem disse que podieis?

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(murtosa; cais do bico)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)

postais da ria (45) – meditação à beira de


marina dos pescadores, torreira, maré cheia

marina dos pescadores, torreira, maré cheia

mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o

o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto

quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde

estou vivo

ahcravo_DSC_4919_marina

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (36)_quanto tempo mil palavras?


escuta sente lê

escuta sente lê

lê a imagem com o vagar
das mil palavras que nela
a sabedoria diz

quanto tempo mil palavras?

ouve-as dizendo-as
sente-as
são a imagem dita por ti
a tua imagem

levo comigo o sonho
de ter visto

quanto tempo mil palavras?

e agora?

e agora?

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (34)


perdidamente

perdidamente

inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando

a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer

dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu

sou eu

ahcravo_DSC_4488_ contra luz

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (31)


POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)

ei-los que chegam como se não

ei-los que chegam como se não

viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns

títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim

não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?

pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes

ahcravo_DSC_6270_ribeira de pardelhas

luminosamente vêm chegando

(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)