postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (54)


eis a questão

o silêncio da ria convida

o silêncio da ria convida

ser ou não ser
não é a questão
ambos são

fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão

faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo

o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser

eis a questão

a beleza da ria surpreende

a beleza da ria surpreende

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (49) – andam por aí


a serenidade convida a pensar

a serenidade convida a pensar

conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para

não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de

gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam

esperam sempre
andam por aí

ahcravo_Imagem 2385 bateiras marina noite

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)

postais da ria (45) – meditação à beira de


marina dos pescadores, torreira, maré cheia

marina dos pescadores, torreira, maré cheia

mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o

o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto

quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde

estou vivo

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(torreira; marina dos pescadores)