os moliceiros têm vela (100)


sou hoje

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fecho os olhos e sinto tudo
como se visse
estou vivo para viver hoje

não para me arrepender
amanhã de não ter feito

levo a carta ao seu destino
nada mais que correio
que não perde a mensagem
leiam-na ou não é sua

chove e é este o tempo

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (99)


palavras de mim

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não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza

não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda

o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar

vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (98)


conheço alguns

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são os da janela que dizem
talvez
analisam criticam meditam
propõem

procuro-lhes os feitos
encontro sem demora logo
os por fazer habituais

estão sempre prontos para
desde que
por isso na janela cotovelos
vejo-os

habitam as mansardas das
casas grandes
ou rés-do-chão dos senhores
das terras

têm do mundo uma visão
superior
mas  é para cima que olham
se chamados

quais gatos têm vidas sete
prontas as usar

ahcravo_DSC_6813 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (97)


body 0113

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um número numa caixa de madeira
depois de ter sido um número numa terra
numa estatística numa máquina de fazer números
um número onde cabem inúmeros só números
sem nome sem família sem data de nascimento
só registo de morte e vala comum a tantos números

um número cada vez maior
nas contas dos bancos offshore
do petróleo das matérias primas
da madeira do petróleo do petróleo
do domínio da geografia onde
for possível ainda sugar dólares euros
de corpos cansados famintos destruídos

corpos sem cotação aparente
no mercado de valores commodities nasdak
nada que possa ser adquirido trocado
valorizado considerado investimento
corpos amarrados sugados espoliados
corpos escravizados pelos senhores da guerra
das fábricas de armamento florescentes
de um ocidente decadente e cínico

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não descanso em paz

o mar pode ser nostrum
mas com que direito o transformamos
no cemitério vostrum?

a globalização do capital é uma frase gasta
mas é uma realidade dura negra árabe
carregada de balas mísseis torturas genocídios
medo fome doença miséria destroços humanos
fuga roubo estupro fuga roubo morte

body 0113
não descanso em paz
não descanso
não

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(ria de aveiro; regata da ria; 2014)

os moliceiros têm vela (96)


retrato de uma primavera

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contam com a memória
não a lembrança incómoda
mas o esquecimento de

são os senhores da guerra
e os fazedores da paz
depois de a terem deflagrado

facturam sempre e com tudo
vendem o sangue
que fizeram derramar e é negro

foram eles que inventaram
o espectáculo
que hoje denunciam bárbaro

moram sempre longe
estão sempre perto
e acreditam em deus

que não lhes perdoará

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (95)


gorim

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escrevo gorim
e sou mais do que eu

são pescadores da xávega
e da ria onde companha tiveram
na azambuja um esteiro
houve com o seu nome
murtoseiros sempre
até nas partidas sem regresso

escrevo gorim
com m de murtosa
termino assim

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(torreira; regata do s. paio; 2010)

os moliceiros têm vela (94)


postal de longe

a chegar a aveiro

a chegar a aveiro

quisera não gostar de ti
de te sentir
tão por dentro de mim
como se eu

quisera não te saber
o passado
preso no meu nome
família de

quisera não gostar de ti
assistir
de olhos secos e mudo
cúmplice
moderno sobrevivente

quisera não me deixasses
assim sem terra
nem raízes nem história
deserdado de mim

se é este o teu futuro
seja
mas não contes comigo
nele

antes não te ver mais
para te ofertar como foste

chamam-lhe recachia

chamam-lhe recachia

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (93)


retrato com moliceiros

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de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio

as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência

há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (92)


dos espectadores

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o poeta sentou-se
não era ainda o tempo das palavras
mas o de olhar e sentir

o tempo passou
e o poeta sentado mudo e quedo
espreitando o mundo

passaram as palavras
passou o poeta
ficou apenas o tempo

condenação de espectador
é ser nada
quando pensou ser tudo
até poeta

ahcravo_DSC_4213torreira; regata do s. paio; 2012)