os moliceiros têm vela (107)


não prestas

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braço a braço vencer
o cansaço
de tanto peso morto
pendurado
no sol de haver quem
o traga

a água  chega-te
fresca
à boca alheio suor
a trouxe

no dizer da terra
de bico amarelo
os que como tu

eu digo
não prestas

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(torreira; regata s.paio; 2014)

os moliceiros têm vela (100)


sou hoje

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fecho os olhos e sinto tudo
como se visse
estou vivo para viver hoje

não para me arrepender
amanhã de não ter feito

levo a carta ao seu destino
nada mais que correio
que não perde a mensagem
leiam-na ou não é sua

chove e é este o tempo

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (99)


palavras de mim

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não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza

não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda

o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar

vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?

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(torreira; regata do s. paio; 2012)