quase
murtosa; regata do bico; 2012
ora batatas
cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada
falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal
servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos
ora batatas para tais palavras
(murtosa; regata do bico; 2010)
de bico amarelo
belas palavras
finos discursos
atentos abraços
o silêncio
quando necessários
os braços
ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes
belas palavras
finos discursos
atentos abraços
de bico amarelo
na armadilha
os embaraços
pássaros muitos
(murtosa; regata do bico; 2010)
coisas da terra
sou da terra
logo posso
(e não há regras
princípios termos)
sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido
(e não há regras
princípios termos)
vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu
estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo
por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra
por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto
fico como vou
(murtosa; regata do bico; 2012)
abraço, ti zé rebeço
conversa a dois
– tá descalço, ti zé?
– não, cravo, trago os sapatos que a minha mãe me deu quando nasci
um homem grande, um homem bom, um homem com coração de oiro, um amigo
filho da terra, irmão da ria, puro e simples como poucos
abraço, ti zé
(murtosa; regata do bico; 2010)