dos modernaços
não é a modernidade que me assusta
são os que em nome dela
assassinam gerações passadas e futuras
de moderno não têm nem pós
(murtosa; regata do bico; 2007)
para o antónio gama
hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto
continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver
ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu
à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu
os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda
abraço antónio
(murtosa; cais do bico)
a (minha) matemática do tempo
somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem
quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei
um ano mais
um ano menos
um ano apenas
(murtosa; regata do bico; 2012)
MOLICEIROS SEMPRE!
quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador
sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo
nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada
nada mais
nada
(murtosa; regata do bico; 2007)
FELIZ ANO NOVO
meditação à beira ria
vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo
foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me
“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”
ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária
não subi
verdade se diga
mas fiz alguns
ficarem
ao nível do chão
(ria de aveiro; murtosa; bestida)
haja janelas
falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu
é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais
solidão não é estar só
é estar mal acompanhado
falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer
haja janelas
(murtosa; regata do bico; 2007)