postais da ria (59)


para o antónio gama

o dia cai e nós

o dia cai e nós . . . 

hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto

continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver

ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu

à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu

os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda

abraço antónio

como em sangue

como em sangue

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (24)


MOLICEIROS SEMPRE!

a caminho do novo ano

a caminho do novo ano

quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador

sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo

nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada

nada mais
nada

um ano novo a colorir de moliceiros

um ano novo a colorir de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

FELIZ ANO NOVO

os moliceiros têm vela (19)


amor longe

só o vento os leva, na memória ficam

só o vento os leva, na memória ficam

é de longe
que a terra se sente
mais íntima
mais nossa

não estranhes pois
este amor
que se estende por um tempo
onde não habitas
porque

foste dos que ficaram

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

(ria de aveiro; murtosa; bico)

postais da ria (55)


meditação à beira ria

sempre em frente

sempre em frente

vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo

foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me

“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”

ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária

não subi
verdade se diga
mas fiz alguns

ficarem
ao nível do chão

(ria de aveiro; murtosa; bestida)

os moliceiros têm vela (18)


haja janelas

há um barco que nos espera para partir

há um barco que nos espera para partir

falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu

é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais

solidão não é estar só
é estar mal acompanhado

falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer

haja janelas

não partas antes de mim

não partas antes de mim

(murtosa; regata do bico; 2007)