da natureza das coisas

um moliceiro sem vela
é como uma ave sem asas
(murtosa; regata do bico; 2007)
da terra e das gentes
amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória
falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português
ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste
tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério
que não descansem em paz
(torreira; regata da ria; 2014)
do social
caminham silenciosos
sensíveis que são ao ruído
dos primeiros passos
aparecem sempre sobre o tarde
dizem de sua justiça
o não dever ser assim como é
arriscam pouco cautelosos
no segundo lugar
da segunda fila a sua cadeira
são a sombra que bebe do sol
o terem voz breve avinagrada
gosto deles como de
certos animais
longe
(murtosa; regata do bico; 2012)
o meu amigo joão magina
nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua
a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas
por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas
pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue
e o futuro incerto
(torreira; marina dos pescadores)
o meu lado
escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é
escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode
escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado
cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado
e sei qual é o meu lado
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)