postais da ria (26)


ria de aveiro; regata da ria, 2014

ria de aveiro; regata da ria, 2014

a propósito o moliço

chamam-se moliceiros
porque à apanha de moliço
homens e barcos corriam a ria
que as terras férteis consumiam

colhiam-no do fundo
e era mais caro na venda
se à superfície dele se dizia
arrolado
misturado com lodo secava
nos cais
e era vendido a preço mais baixo

no mesmo catálogo
digo hoje dos amigos
dos do fundo
dos que ainda do fundo
me fertilizo e ganho os dias

aos arrolados
estou velho demais
para com eles
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gente marinhoa


estão no início e no começo
que à terra volta o que da terra veio
com ela se confundem desde sempre
são o seu rosto o seu corpo vivo

o tempo rasgou-lhes na face
os sulcos onde semeou ternura
e amor
pelas coisas simples
água terra fogo

amam tudo
que natural é assim ser
o milho os animais o chão
amam-se

entre luz e sombra
repartem o dia
porém
tudo iluminam
quando sorriem

são ainda a fala da terra

(palavras para um vídeo de Jorge Bacelar)

da cidade com o mar em fundo


horácio

horácio

as paredes não são quatro
enganaram-te quando da casa
to disseram
esquece os números
a parede é imensa e dentro dela
acontece e desacontece

um mundo fechado
onde os sorrisos crescem
e a vida se consome
numa solidão a que poucos

lembro-me agora do mar
e de como até as viagens por dentro
são partilhadas por todos

a cidade é um povoado de solidões
escondidas entre paredes

as casas são o disfarce perfeito
para a alegria das ruas

hoje está sol nas ruas

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(xávega; torreira; companha do marco; 2011)

o princípio da incerteza


por momentos os cisnes de novo

por momentos os cisnes de novo

éramos jovens e voávamos
pelos dias
sem sobressaltos de amanhã
éramos um bando
voávamos assim

que ontem dentro do hoje?

o voo é agora incerto
as asas foram perdendo penas
a pena que eu tenho
de não as ter
é saber que as tivemos

rasamos os dias
sem saber onde e quando
poisaremos

o agridoce dos dias

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2014)

denúncia


um país por dentro do país
um povo por dentro do povo
um silêncio

são os que nunca partiram
ou se o fizeram
regressaram porque a terra
à terra torna
e eles são a terra da terra

existem mas são estranhos
aos grandes números
são minuciosos nas pequenas coisas
vivem delas e com elas

se existe beleza naquilo que são
maior seria
a beleza de serem aquilo que lhes negam
porquê hoje ainda assim?

sou cada dia mais estrangeiro
no meu país

(palavras para um vídeo de Jorge Bacelar)

ainda há sol


xávega: o arribar da mão de barca

xávega: o arribar da mão de barca

não sei que te diga hoje
senão o inventar de mais um dia
em que tu e eu fomos
memórias muitas nossas onde?

semeámos os dias de nós
semeaste-me de ti

caminhas agora a meu lado
e sou eu quem te dá a mão
te ensino o por onde
te digo o como

vem
ainda há sol e caminho
para andar
(torreira; companha do marco; 2011)

o arribar da mão de barca

os afectos e as malhas


o agostinho e o porfio a fechar o saco

o agostinho e o porfio a fechar o saco

mandei escrever no braço
o amor por ti
não esqueço
nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem

malhas largas
os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

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(torreira; companha do marco; 2011)

sou mais um


um por todos e todos

um por todos e todos

do muito andado
ficou o ser daqui
sem aqui ter nascido
que é esta a terra onde as raízes
mergulham

é esta a minha gente

o sangue que me correr nas veias
enquanto
carreia sal destas águas
e das outras onde tudo começou

ser eu deles
serem eles de mim
sentimos alguns
sentimos muitos
sentimos os que

por isso me dói
tudo e tanto
por isso não assisto
sou mais um

(ria de aveiro; torreira; corrida de chinchorros; s paio 2014)