o sol que me traz
transporte que nunca chega
cedo bastante
para tanta sede
revejo as gentes
a minha gente
a ria
o mar
os barcos
tudo sou
as crianças cresceram
outros partiram
um dia fui
outro terei sido
tarda
torreira; porto de abrigo)
a construção da memória
escrevo o tempo
na areia dos dias
e sei
que nada é eterno
apenas prolongo
o ter sido
as memórias
que ofereço
são o meu tempo
que deixa de ser meu
para ser nosso
para ser vosso
isso tenho feito
(torreira; séc. XX)
ao arrais joão da calada devo muito do que sei sobre as gentes e a xávega do seu tempo
como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido
não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo
na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos
não prestas como vendedor
mas sei como te compraram
(regata da ria; junho 2010)
esgota-se o gesto
no movimento
suspende-se a mão
no instante
a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa
quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?
feitas
as contas
a paga
não chega
para
partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)