para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

bota!


 

 

barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

à porta do mar
não se bate
nem se pergunta
se se pode entrar

entra quem sabe
porta dentro
a casa invade
toma por suas
janelas e paredes

haver dentro delas
pão que fará sorrir
quem em torno da mesa
é motivo que baste
para que o arrais grite

bota!

 

(torreira; companha do marco; 2010)

o encontro


ao fundo o ti alfredo bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

ao fundo o ti miguel bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

não se desfazem os nós
que o mar fez
entrelaçaram-se as vidas
enquanto o forem
tempo houver

os que chegam
chegaram há muito
eram outros
quando
lembro-me de miúdos
a gatinhar da areia

os que partem
não partem nunca
afastam-se apenas
para serem o outro
o que foram
na memória contada
à mesa dos dias
onde entre dois copos
recrescem nas palavras

não se despedem nunca
marcam encontro onde

(torreira; companha do marco; 2010)

talhar o aberto


 

obrigado, tina rodrigues

aurora brandão

não sei o que não sei
e o não saber não custa
porque o não sei

o cultivar da ignorância
não é a ignorância do cultivado
é saber até onde posso

impossível saber tudo
bom saber muito
óptimo saber que sei

mas
já nem isso
perco-me demais
para me encontrar um pouco

não sei o como
sei que funciona
um dia vou saber mais
para ficar a saber o mesmo

talvez
fique feliz
talvez

 

(ria de aveiro; toreira; porto de abrigo)

 

obrigado tina rodrigues

o princípio da incerteza


alar da solheira (joão costeira)

estou de novo em plena ria
o joão ala as redes
suspenso do que nelas emalhado
poderá vir
terá largado num sítio bom?
terá tido sorte?

não há certezas
para além do saber da arte

o princípio da incerteza
pode ter sido enunciado por um físico
aplicado às ciências quase exactas
mas é dele que a pesca artesanal se faz
sem saber de ciência alguma

o joão continua sem pressas
braçada a braçada
a rede entra no barco

nada mais lhe resta que ter tido
sorte

(ria de aveiro; torreira; alar da solheira)

estar vivo


olho o que vi
e escrevo o que penso
por ter ficado a memória
de ter visto

o longe faz-se perto
tudo pode ser aqui agora
igual jamais
diverso porque recriado

dou-te o que recebi
como revejo hoje
não como o vi

o que te ofereço é
a minha memória

constrói a tua
estás vivo para criar

(regata de moliceiros; murtosa; bico; 2007)

digo de mim


 

passa por mim o baixo mondego

passa por mim o baixo mondego

 

 

como somos breves

como é ilusório este corpo onde

pendurado o pensar

 

sento-me e vejo que tudo passa

num infinitésimo de tempo

passado presente e futuro estão

 

caio e levanto-me ainda

sorvo o instante como se o último

e grito como se nascesse

 

digo de mim

 

(da janela do comboio, algures entre coimbra e a figueira da foz