sob a placidez das águas
há uma corrente invisível
aos mais desatentos
não substimes
o que não vês
escuta
as vozes por dentro
do silêncio
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força
ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no
aos homens da ria
aos homens do mar
ser só
só
é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)
(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)
se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não
ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles
quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde
falar de nós
isso busco
nada mais
fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir
(ria de aveiro; torreira)
ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem
o agar nos secos do bico esperava. queimado foi por ordem de quem poderes tem
olho ainda o que já não
guardo-o em mim
coisa minha de ter sido
as chamas comeram-lhe
o que o tempo deixara
contarás as imagens
que prémios ganharam
e era ele a personagem central
loucura pensar que por isso
ficaria mais
um bico no bico
de cimento e azulejo
aponta o céu
virado ao mar
virado ao mar
o fim já tinha começado
(ria de aveiro; murtosa; bico)
(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não
a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores
o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora
jamais pescará em terra
(ria de aveiro; torreira)
o medo
queria-o de contornos
bem definidos
reconhecível
não assim
pressentido em cada frase
nos semblantes
na dúvida inserta a tudo
no tempo e nos modos
nos dias de cada um
amanhã
começará abril
o iluminado mês em que cravos
por armas se trocaram
amanhã
queria oferecer-te um país
colado no rosto de um povo
que tivesse nomes de gente desta terra
e não palavras estranhas
orçamentadas e frias
por habitantes
não tenho medo do medo
que dele conheci as manhas
tenho medo que tu o tenhas
e à sua sombra vivas
só por medo do medo
não te roubaram o sol
mas
terás de lutar por ele
de novo