não digas nada


o lançar da cabrita

o lançar da cabrita

 

não digas nada

queda-te onde

olha apenas

sente tudo

sente

 

o silêncio

por dentro

enche-se de

palavras

que

nunca dirás

porque nada dirão

do que viste

 

depois parte

não digas o como

não o saberás

diz que venham

tão só isso

 

não digas nada

 

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta)

cisnes da ria (1)


 

 

moliceiros de velas ao vento

moliceiros de velas ao vento

 

a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida

o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa

foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria

moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele

escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia

(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)

 

mãos de peixe


mãos de peixe

mãos de peixe

 

é de cavala o lanço

farto e fraco

pesado na rede

parco no rendimento

 

os olhos dizem onde

as mãos vão como

 

aparta-se algum carapau

peixe de escolha

(assim dizem do robalo do linguado)

pela ponta da cauda

as lacraias

(peixe aranha)

um apertar do dedo se picado

pausa para conter a dor

 

o saber destas mãos

que sem qualquer protecção

são peixes no mar deles

 

mãos limpas

por mais que

mãos de peixe

mãos de mar

 

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2010)

do ficcionado (des)equilíbrio


o meu amigos salvador belo, cuja posição me inspirou

o meu amigo salvador belo, cuja posição me inspirou

 

 

a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência

 

quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?

 

sobreviver
não é subservir

 

o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa

 

a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores

 

partiu-se um vidro na janela
era o teu nome

 

 

 

é urgente


torreira, porto de abrigo

torreira, porto de abrigo

 

inventar um país

para este povo

o que ergue a bandeira

mesmo se longe

o que deu o sangue

mesmo se errado

o que se deu todo

e se sente enganado

 

inventar um país

não é

destruir um povo

 

inventar um país

é ter de

se necessário

recomeçar de novo

 

é urgente

 

(torreira; porto de abrigo)