conheço-a há muito
é a “cuca”
nunca lhe conheci outro
nome
sei que sempre
no mar na ria
foi como todas
mais um
no dia da mulher
fica delas uma
ficam elas
nela
todas
(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)
espero
espero sempre
mesmo se não
saiba o quando
o como o porquê
é como se
um tempo outro
uma memória presente
pressentida
algo difuso
provocadoramente belo
existo
por entre
sem muitas vezes
saber como
tanto tempo assim
nada é nítido
temo quando o for
(torreira; companha do marco; 2010)
a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida
o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa
foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria
moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele
escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia
(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)
é de cavala o lanço
farto e fraco
pesado na rede
parco no rendimento
os olhos dizem onde
as mãos vão como
aparta-se algum carapau
peixe de escolha
(assim dizem do robalo do linguado)
pela ponta da cauda
as lacraias
(peixe aranha)
um apertar do dedo se picado
pausa para conter a dor
o saber destas mãos
que sem qualquer protecção
são peixes no mar deles
mãos limpas
por mais que
mãos de peixe
mãos de mar
mãos
(torreira; companha do marco; 2010)
a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência
quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?
sobreviver
não é subservir
o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa
a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores
partiu-se um vidro na janela
era o teu nome
inventar um país
para este povo
o que ergue a bandeira
mesmo se longe
o que deu o sangue
mesmo se errado
o que se deu todo
e se sente enganado
inventar um país
não é
destruir um povo
inventar um país
é ter de
se necessário
recomeçar de novo
é urgente
(torreira; porto de abrigo)