a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

xávega, recriação em espinho 2012


 

ir ao mar

ir ao mar

são de terra
de a trabalhar talvez
gandareses os reconheço
pela canga
o mar só os donos
alguns
o viram e sabem

não vieram a banhos
nem disso sabiam quando

molham as patas
sentem o mar
temê-lo-ão sempre
mas mais forte
a dor
do aguilhão

nem para todos
é festa
a recriação

(espinho; 2012)

lágrimas de crocodilo


regata da ria; 2011

a ilusão de haver tempo
sem vento de dias
sem sopros
sem

a ilusão de ficar mais
para além de
não saber
se

a ilusão de estar de novo
sempre
sem querer saber que um dia
não mais moliceiros
que a memória
de terem havido

a ilusão não
se pendura nos olhos
por saber que nos gabinetes
haverão quadros homenagens sorrisos
emblemas bandeiras frases desfeitas

lágrimas de crocodilo

(torreira; regata da ria; 2011)

pai, doirei a ria para ti


 

a ria que o meu pai vê

a ria que o meu pai vê

 

hoje
fomos ver a ria pai
hoje
fomos ver o mar pai
falámos

falámos de tudo
e
não dissemos nada
nada das histórias
que me ensinaste
que me fizeste viver
quando para aqui
me trouxeste

hoje pai
o calendário diz que é o dia
do pai
de todos os pais
mas
todos os dias pai
todos os dias
têm uma história contigo
dentro

algumas já não são só tuas e minhas
já as contei e são de muitos
outras
serão sempre só nossas
como quando digo:

um beijo pai

xávega, no tempo dos bois


o arrais joão da calada

o arrais joão da calada à frente da junta

 

a construção da memória

 
escrevo o tempo
na areia dos dias
e sei
que nada é eterno
apenas prolongo
o ter sido

 

as memórias
que ofereço
são o meu tempo
que deixa de ser meu
para ser nosso
para ser vosso

 

isso tenho feito

 
(torreira; séc. XX)

 

ao arrais joão da calada devo muito do que sei sobre as gentes e a xávega do seu tempo