querer
ser perfeito
até
na imperfeição
(no meio da ria o pescador continua a alar a rede da solheira, indiferente às preocupações de alguém sem nada que fazer, pensando serem de oiro estes momentos)
como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido
não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo
na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos
não prestas como vendedor
mas sei como te compraram
(regata da ria; junho 2010)
esgota-se o gesto
no movimento
suspende-se a mão
no instante
a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa
quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?
feitas
as contas
a paga
não chega
para
partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
espero
espero sempre
mesmo se não
saiba o quando
o como o porquê
é como se
um tempo outro
uma memória presente
pressentida
algo difuso
provocadoramente belo
existo
por entre
sem muitas vezes
saber como
tanto tempo assim
nada é nítido
temo quando o for
(torreira; companha do marco; 2010)
a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida
o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa
foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria
moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele
escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia
(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)