o meu amigo joão manuel brandão


a ria no rosto

joão manuel brandão

joão manuel brandão

escrevo o teu rosto
sem palavras
vejo-te para que te
saibam e oiçam

não há silêncio na ria

não sei como dizer-te
sinto-te
e semeio-te como és

a beleza da ria
é o retrato do teu rosto

joão manuel brandão

(torreira; cabrita alta)

não digas nada


o lançar da cabrita

o lançar da cabrita

 

não digas nada

queda-te onde

olha apenas

sente tudo

sente

 

o silêncio

por dentro

enche-se de

palavras

que

nunca dirás

porque nada dirão

do que viste

 

depois parte

não digas o como

não o saberás

diz que venham

tão só isso

 

não digas nada

 

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta)

porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)