agar ou a memória de um moliceiro


 

 o agar nos secos do bico esperava. queimado por ordem de quem poderes tem

o agar nos secos do bico esperava. queimado foi por ordem de quem poderes tem

 

olho ainda o que já não
guardo-o em mim
coisa minha de ter sido

as chamas comeram-lhe
o que o tempo deixara

contarás as imagens
que prémios ganharam
e era ele a personagem central
loucura pensar que por isso
ficaria mais

um bico no bico
de cimento e azulejo
aponta o céu
virado ao mar
virado ao mar

o fim já tinha começado

 

(ria de aveiro; murtosa; bico)

 

pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)

o medo


 

a safar redes no chegado

a safar redes no chegado

 

 

o medo

queria-o de contornos

bem definidos

reconhecível

 

não assim

pressentido em cada frase

nos semblantes

na dúvida inserta a tudo

no tempo e nos modos

nos dias de cada um

 

amanhã

começará abril

o iluminado mês em que cravos

por armas se trocaram

 

amanhã

queria oferecer-te um país

colado no rosto de um povo

que tivesse nomes de gente desta terra

e não palavras estranhas

orçamentadas e frias

por habitantes

 

não tenho medo do medo

que dele conheci as manhas

tenho medo que tu o tenhas

e à sua sombra vivas

só por medo do medo

 

não te roubaram o sol

mas

terás de lutar por ele

de novo

a fala silenciosa dos bois


 

 

mansa força bruta

mansa força bruta

 

somos agora outros
não tantos
não tão possantes
marinhões ainda
força
mansa e bruta
bois juntos
juntas de

memória de ter sido
nos genes tão só
cuidai disso quando
de nós quiserdes
o que fomos
sem o sermos

reviver não tem de ser
sofrer

(recriação da xávega, torreira, setembro 2013)

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)

escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

xávega, recriação em espinho 2012


 

ir ao mar

ir ao mar

são de terra
de a trabalhar talvez
gandareses os reconheço
pela canga
o mar só os donos
alguns
o viram e sabem

não vieram a banhos
nem disso sabiam quando

molham as patas
sentem o mar
temê-lo-ão sempre
mas mais forte
a dor
do aguilhão

nem para todos
é festa
a recriação

(espinho; 2012)