a senhora

a senhora

 

os saberes são os de sempre

como os barcos e os aparelhos

receberam e dão

pais de filhos

memória são

 

homens e mulheres

jovens e menos jovens

todos

procuram no debaixo das águas

o pão que noutro sítio não sabem

 

porquê agora?

porquê aqui?

porquê?

 

chamam-lhe fé

 

(torreira; porto de abrigo)

os noivos do mar


 

barco mar maria de fátima

barco mar maria de fátima

 
só sei de dois mares
o dos que ficam com ele
pendurado nos olhos
e o dos que só são se por ele dentro

ter o mar por destino
é ter nascido e crescido a ele igual
tê-lo ouvido rugir no berço
nas noites de nortada invernal
e esperar ansioso o dia

de com ele noivar

 

(torreira; companha do marco; 2010)

os cisnes da ria


regata de moliceiros no bico, murtosa

regata de moliceiros no bico, murtosa

pisam um palco
que sempre foi seu
jardineiros de um jardim
ora submerso
ora flutuante

são os mais belos
barcos do mundo
as mulheres dos barcos
machos do mar

esbeltos oferecem-se
ao casamento manso com
as águas virginais
(em tempo diria)
da ria

são tão belos
quanto usados
e desprezados
pelos que os usam
como emblema
orgulho e amor de quem os tem
por filhos e amantes

os cisnes da ria
já são poucos
precisa-se de homens
com h

(bico; murtosa; regata de moliceiros)

porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)