lágrimas de crocodilo


regata da ria; 2011

a ilusão de haver tempo
sem vento de dias
sem sopros
sem

a ilusão de ficar mais
para além de
não saber
se

a ilusão de estar de novo
sempre
sem querer saber que um dia
não mais moliceiros
que a memória
de terem havido

a ilusão não
se pendura nos olhos
por saber que nos gabinetes
haverão quadros homenagens sorrisos
emblemas bandeiras frases desfeitas

lágrimas de crocodilo

(torreira; regata da ria; 2011)

pai, doirei a ria para ti


 

a ria que o meu pai vê

a ria que o meu pai vê

 

hoje
fomos ver a ria pai
hoje
fomos ver o mar pai
falámos

falámos de tudo
e
não dissemos nada
nada das histórias
que me ensinaste
que me fizeste viver
quando para aqui
me trouxeste

hoje pai
o calendário diz que é o dia
do pai
de todos os pais
mas
todos os dias pai
todos os dias
têm uma história contigo
dentro

algumas já não são só tuas e minhas
já as contei e são de muitos
outras
serão sempre só nossas
como quando digo:

um beijo pai

xávega, no tempo dos bois


o arrais joão da calada

o arrais joão da calada à frente da junta

 

a construção da memória

 
escrevo o tempo
na areia dos dias
e sei
que nada é eterno
apenas prolongo
o ter sido

 

as memórias
que ofereço
são o meu tempo
que deixa de ser meu
para ser nosso
para ser vosso

 

isso tenho feito

 
(torreira; séc. XX)

 

ao arrais joão da calada devo muito do que sei sobre as gentes e a xávega do seu tempo

 

carta a pedro e ….


 

a força do homem

a força do homem

 

como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido

não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo

na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos

não prestas como vendedor
mas sei como te compraram

(regata da ria; junho 2010)