o medo


 

a safar redes no chegado

a safar redes no chegado

 

 

o medo

queria-o de contornos

bem definidos

reconhecível

 

não assim

pressentido em cada frase

nos semblantes

na dúvida inserta a tudo

no tempo e nos modos

nos dias de cada um

 

amanhã

começará abril

o iluminado mês em que cravos

por armas se trocaram

 

amanhã

queria oferecer-te um país

colado no rosto de um povo

que tivesse nomes de gente desta terra

e não palavras estranhas

orçamentadas e frias

por habitantes

 

não tenho medo do medo

que dele conheci as manhas

tenho medo que tu o tenhas

e à sua sombra vivas

só por medo do medo

 

não te roubaram o sol

mas

terás de lutar por ele

de novo

a fala silenciosa dos bois


 

 

mansa força bruta

mansa força bruta

 

somos agora outros
não tantos
não tão possantes
marinhões ainda
força
mansa e bruta
bois juntos
juntas de

memória de ter sido
nos genes tão só
cuidai disso quando
de nós quiserdes
o que fomos
sem o sermos

reviver não tem de ser
sofrer

(recriação da xávega, torreira, setembro 2013)

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)

escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

xávega, recriação em espinho 2012


 

ir ao mar

ir ao mar

são de terra
de a trabalhar talvez
gandareses os reconheço
pela canga
o mar só os donos
alguns
o viram e sabem

não vieram a banhos
nem disso sabiam quando

molham as patas
sentem o mar
temê-lo-ão sempre
mas mais forte
a dor
do aguilhão

nem para todos
é festa
a recriação

(espinho; 2012)

lágrimas de crocodilo


regata da ria; 2011

a ilusão de haver tempo
sem vento de dias
sem sopros
sem

a ilusão de ficar mais
para além de
não saber
se

a ilusão de estar de novo
sempre
sem querer saber que um dia
não mais moliceiros
que a memória
de terem havido

a ilusão não
se pendura nos olhos
por saber que nos gabinetes
haverão quadros homenagens sorrisos
emblemas bandeiras frases desfeitas

lágrimas de crocodilo

(torreira; regata da ria; 2011)

pai, doirei a ria para ti


 

a ria que o meu pai vê

a ria que o meu pai vê

 

hoje
fomos ver a ria pai
hoje
fomos ver o mar pai
falámos

falámos de tudo
e
não dissemos nada
nada das histórias
que me ensinaste
que me fizeste viver
quando para aqui
me trouxeste

hoje pai
o calendário diz que é o dia
do pai
de todos os pais
mas
todos os dias pai
todos os dias
têm uma história contigo
dentro

algumas já não são só tuas e minhas
já as contei e são de muitos
outras
serão sempre só nossas
como quando digo:

um beijo pai