estar vivo


olho o que vi
e escrevo o que penso
por ter ficado a memória
de ter visto

o longe faz-se perto
tudo pode ser aqui agora
igual jamais
diverso porque recriado

dou-te o que recebi
como revejo hoje
não como o vi

o que te ofereço é
a minha memória

constrói a tua
estás vivo para criar

(regata de moliceiros; murtosa; bico; 2007)

digo de mim


 

passa por mim o baixo mondego

passa por mim o baixo mondego

 

 

como somos breves

como é ilusório este corpo onde

pendurado o pensar

 

sento-me e vejo que tudo passa

num infinitésimo de tempo

passado presente e futuro estão

 

caio e levanto-me ainda

sorvo o instante como se o último

e grito como se nascesse

 

digo de mim

 

(da janela do comboio, algures entre coimbra e a figueira da foz

nos 40 anos do 25 de abril


caminhos de abril

caminhos de abril

 

foram cravos que de balas
cansados estavam os que seguiram
o plano desenhado para a paz
por mãos certeiras e sábias
o segredo fora bem guardado

espalhados pela terra que pisamos
pedaços de corpos ou o suposto de o terem sido
vindos de guerras compradas por outros
onde como em todas entre morrer ou matar
não havia outro caminho
fugidos muitos de outras terras diziam
como os nossos

foram cravos e povo
foi um povo que não mais quis ser escravo
foram homens e mulheres
foi um dia diferente em que o sol nasceu
noite ainda
renovado acordou o país

quarenta anos passados
cansado de novo de outros senhores
de outros senhores
há quem continue disposto a lutar
pela beleza do sonho inconcretizado
aos quarenta anos não se está velho
nunca é tarde aos quarenta

o povo é sereno alguns dirão
também o plaino antes do furacão

o fim, minha amiga


a bateira dorme

aqui estou encalhada
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais uma serei
a somar às que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 (a bateira dorme; torreira)

acender o instante


por detrás da mão, mário laginha

por detrás da mão, mário laginha

 

regresso

ao silêncio vestido de música

das notas escritas numa folha

não as entendo

olhos guiam mãos fraseados

que se perdem na criação de

 

escuto

a fuga das vozes para uma só boca

o marfim rebrilha à carícia dos dedos

estendo os olhos por sobre a sombra

busco uma luz possível

 

acendo o instante

 

(tone music school, coimbra; abril 2014)

 

*******************************************************************************

 

um piano
um homem
uma voz
uma mulher

jazz

laginha, o mário
rita maria
os que souberam
foram felizes

momentos luminosos

DSC_6896_tone rita maria DSC_6906_tone_mario laginha DSC_6907_tone_mario laginha DSC_6910_tone_mario laginha DSC_6913_tone rita maria DSC_6917_tone_mario laginha DSC_6918_tone rita maria DSC_6927_tone_mario laginha DSC_6939_tone_mario laginha DSC_6954_tone rita maria DSC_6960_tone_mario laginha DSC_6962_tone rita maria DSC_6972_tone_mario laginha DSC_6975_tone_mario laginha DSC_6979_tone rita maria DSC_6983_tone_mario laginha DSC_6995_tone_mario laginha+rita DSC_6999_tone rita maria DSC_7007_tone_mario laginha DSC_7015_tone_mario laginha DSC_7028_tone_mario laginha DSC_7046_tone_mario laginha DSC_7052_mario laginha DSC_7057_tone_mario laginha+rita DSC_7063_tone_mario laginha DSC_7069_tone_mario laginha DSC_7072_tone rita maria DSC_7082_mario laginha DSC_7085_mario laginha