onde habita o olhar


quando o real se torna
virtual
e o virtual se torna real
a memória reside algures
já não onde
sequer como
era

apetece-me refazer tudo
e a mim também
para que o ter sido ganhe
em beleza o que perdeu
por já não ser

sou o criador
que abre as mãos
do que não pode guardar
e te encontro algures à minha espera

onde habita o olhar

(regata de moliceiros; bico; 2007)

o mar sempre


 

o maria de fátima a galgar a onda

o maria de fátima a galgar a onda

 

quantas vezes se faz
o barco
no fazer-se ao mar?
e os  homens
fazem-se?

ficar em terra
será destino outro
acomodado
de alguns

vencer a onda
ganhar o largo
ou pelo menos tentar
é desafio diário

ou morrer na areia

 

(torreira; companha do marco; 2010)

um dia foi assim


o fim de um sonho

sei do momento a beleza
bebo-a insaciável de tanta
sei-a agora só
sinto-a como se coisa irreal
fugaz sem palavras para

recordo-a sempre que
sei que jamais se repetirá
que vendidos foram os barcos
levados os mastros
cortadas as bicas
não sei se ainda pousam
amputados de si
na ria do faz de conta

um dia foi assim
na ria
o sonho brilhou

(ria de aveiro; torreira; 2010)

memórias de um almoço


 

dois bons amigos: nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

dois bons amigos: nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

 

a mesa
o respeito pelo pão
oferta merecida pelo trabalho
e a graça de deus
a fé e a coragem as armas
o respeito

a cabeça sob o sol inclemente
coberta sempre
descobre-se à mesa e na casa do senhor

não serei crente
mas crença maior não há
que a da gente do mar
a crença nestas gentes crente
é o abraço que nos une
rente ao mar

lavo-me neles

 

(torreira; companha do marco; 2010)

somos o que juntos


 

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

 

 

somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força

ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no

aos homens da ria
aos homens do mar
ser só

é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)

ver e sentir


 

 

ti manel joão e um saco de berbigão

ti manel joão e um saco de berbigão

 

(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)

 

se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não

ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles

quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde

falar de nós
isso busco
nada mais

fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir

 

(ria de aveiro; torreira)

 

ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem

agar ou a memória de um moliceiro


 

 o agar nos secos do bico esperava. queimado por ordem de quem poderes tem

o agar nos secos do bico esperava. queimado foi por ordem de quem poderes tem

 

olho ainda o que já não
guardo-o em mim
coisa minha de ter sido

as chamas comeram-lhe
o que o tempo deixara

contarás as imagens
que prémios ganharam
e era ele a personagem central
loucura pensar que por isso
ficaria mais

um bico no bico
de cimento e azulejo
aponta o céu
virado ao mar
virado ao mar

o fim já tinha começado

 

(ria de aveiro; murtosa; bico)

 

pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)